Por Marconi Moura de Lima Burum*


Neste dia 19 de setembro tive a alegria de assistir a
uma live [1] com um dos juristas que mais admiro em todo o mundo (e não é
exagero). Trata-se de José Geraldo de Sousa Junior, o mesmo que, na CPI do MST,
detonou a deputada Carolina De Toni, quando emplacou uma daquelas frases [2]
que ficará para sempre no imaginário do brasileiro. (Mas este não é o assunto
do texto. Dá um Google e você encontra o vídeo viral deste evento histórico na
Câmara dos Deputados.)
Data
vênia, pela primeira vez precisei discordar do renomado professor da UnB.
Quando ele vai mencionar o contexto da crise no STF, em particular, para
defender o ministro Luiz Edson Fachin, presidente da Corte. E com a potência
metafórica que lhe é marca registrada, fez contraditar as premissas embutidas
na pergunta deste telespectador.
André Mendonça: um cabo
eleitoral de Toga Suprema
Senão,
vejamos. Queria José Geraldo se reportar ao fato de o Fachin ter acertado
quando adia o julgamento da ação que liga o seu colega, ministro André
Mendonça, ao escândalo do Banco Master e, por óbvio, às relações estranhas do
magistrado com o banqueiro, Daniel Vorcaro.
Em vias normais, um julgamento tende para tão somente
acompanhar a ordem das leis que devotam seu procedimento, seu rito processual.
Não! Não é verdade! Todo e qualquer julgamento nos impõe, os sujeitos
históricos, observarmos que os ritos, os procedimentos (talvez) resolvam as
questões de direito, mas não resolvem por si somente todas as questões de
justiça que se alocam no evento judicante. Há subjetividades no julgador que
sempre estarão a incluir, seja para melhor oportunizar a Justiça, ou negá-la
(inclusive em conta-gotas).
Mais
cauteloso deve ser todo julgado que brotam dos tentáculos do caso “Banco
Master”, este que não impôs uma crise somente para o Sistema de Justiça.
Ademais, entrou de cabeça na eleição presidencial, a vida de todo um País; de
todo um povo. E produziu um pseudo herói de palha chamado André Mendonça que,
no falsete do jogo político, emaranhou a Suprema Corte e trouxe (já evidenciado
em pesquisas) louros eleitorais para o seu candidato, Flávio Bolsonaro.
Logo,
não considerar isto como um fator evidente é não entender que o jogo é jogado e
que precisamos de um ir além dos pensamentos “protocolares” do STF (ou de
qualquer corte).
Tese de Fachin e Tese de Dino:
Questão de Ordem!
Lendo
mais didaticamente o que estou a dizer. O ministro Fachin, dono da pauta do
STF, levou Alexandre de Moraes ao banco dos réus. (Um parêntese fundamental: eu
desejo que Moraes também seja investigado na plenitude. Todos os 5 devem
sê-lo.)
O que está em questão aqui é a ridicularização de um
ministro, exposto em praça pública. E, no potencial mesmo crime (talvez até
pior), o outro ministro seguir preservado do escrutínio da opinião pública. E
mais grave ainda é que isto tem impacto fundamental nas urnas. Meu Pai! Estamos
falando de um Brasil inteiro correndo risco; de uma eleição a ser decidida em
“centímetros” de votos; em um momento histórico para cuja transformação de um
“herói” aliado de um fascista miliciano pode levar este ao comando do País. E
este herói de sorvete, que deveria ser levado ao “sol” do julgamento do dia 23
de setembro, para que o mesmo País (que já condena o Moraes) visse derreter a
hipocrisia do colega na mesma praça pública que viu o outro sendo julgado, não
o verá até que se passe o pleito eleitoral que, torçamos em contrário, pode
causar enorme tragédia ao Brasil.
Quanto
ao Despacho (formalismo protocolar) do presidente Fachin diante da Petição
16.704 DF (do pedido de investigação do Mendonça). Sim, li. E o que está
escrito lá é, para dizer o mínimo, falacioso. Vamos aos dados.
Se Fachin realmente queria respeitar a Questão de
Ordem provocada por Flávio Dino (e levada ao Pleno por Gilmar Mendes), por que
então votou contra o evento jurídico em tela no dia 15?
Deixa
eu arriscar uma simulação de lógica. Se a PET 16.704 (face ao Mendonça) fosse a
Plenário no dia 23, é evidente que o ministro Flávio Dino manteria a coerência
e pediria vistas para sugerir que esta aguardasse o desfecho da Questão de
Ordem. Ou, se se construísse o entendimento de “Gabinete” de Dino devolver o
pedido de vistas na mesma sessão com o compromisso de aceitação da Questão de
Ordem, este julgado seria vinculado à PET 16.662 (face ao Moraes).
É óbvio que, no direito positivado, estamos
diante de um julgamento de eventos vinculados aos institutos de Conexão e
Continência (art. 76 e 77, do CPP), conforme Dino aludiu. Todos os juristas de
respeito, excetuando Cármen Lúcia e Edson Fachin, que têm o dom de titubear nos
momentos mais dolorosos da República, concordam com isto. E nem vou considerar
o Luiz Fux, o André Mendonça e mesmo o Dias Toffoli porque não os considero
juristas de respeito. São meros sujeitos de interesse que se aproveitam dos
seus espaços de poder para viver uma vida mais simpática que os outros mortais.
Não é vingança; é xadrez!
Trazer
o julgamento de possível abertura de investigação do ministro André Mendonça
não é vingança: é tática civilizatória!
Vamos
às premissas: se Fachin defende de fato a democracia; se o ministro tem sincera
vontade de proteger as instituições e a Corte que preside; se o jurista
comandante do STF é capaz de perceber que a sagração de Flávio Bolsonaro nas
urnas para assumir a presidência do Brasil é uma ameaça civilizatória (e a toda
esta performance que citamos nas premissas), ele precisa compreender que o jogo
é de raciocínio sistemático e não eventual. (Dedo, estrelas; e história e
consequência de se olhar com atenção a ambos.)
E é fundamental que se diga: Fachin, ao manter o
julgamento do dia 23 não estaria em qualquer momento ferindo a Lei, a
Constituição. Dentro do rito, dos procedimentos escorreitos das normas pátrias,
apenas trataria Chico e Francisco com o mesmo cajado nos lombos. Isto é, ao
Alexandre (que o eleitor já pensa ser do Lula) e ao André (que todos temos
certeza pertencer ao bolsonarismo), seria oferecido a mesma arena e, na
disputa, a exposição que parece ser, no curto prazo, desgastante ao STF,
ajudaria a desmistificar o sujeito como “bom moço” à parcela do eleitor do voto
útil. Todavia, no médio ou longo prazos, a integridade da Suprema Corte – que
hoje nem pode ter certeza se não será fechada, sucumbida, caso os golpistas
retornem à rampa do Palácio do Planalto – estaria consagrada no espírito da
Justiça.
Olhando para a ponta do dedo ou
para as estrelas
Embora
eu não participe da mesma cosmovisão da deputada De Toni (PL/SC), o filósofo da
UnB trouxe na live a seguinte metáfora para responder a uma pergunta que eu lhe
enviei por meio do apresentador do programa:
“Quando
alguém aponta para as estrelas, o prudente, o sábio, olha para o céu; o
desavisado olha para a ponta do dedo”. (O link está abaixo, caso desejes
assistir.)
É
evidente que não tenho qualquer pretensão de refutar a sabedoria e o acúmulo
teórico do professor José Geraldo. Sou-lhe apenas um singelo discípulo.
Contudo, há questões – na política – que podemos interpretar de um modo “A” e
de um modo “B” e ambos estarem, ou corretos, ou equivocados. Faz parte do devir
das nuvens (como ensinara Magalhães Pinto, ao falar das constantes mudanças da
conjuntura política).
Ademais, eu provavelmente fiz a pergunta olhando para
a “ponta do dedo”. Mas e o Fachin? Na metáfora do Zé Geraldo, Fachin talvez
seja uma das estrelas deste imenso céu. E como sabemos: muitas das estrelas são
corpos celestiais mortos que conjugam a sua luz a chegar a nossos olhos bilhões
de anos adiante de seu envio de origem. Isto é, há que se considerar a história
dos “astros” e sua “luz” a influenciar, muito tempo depois, o movimento dos
“corpos terrestres”. E a história de Fachin é um compilado de brilhos
encantadores (como quando, por exemplo, advogava para os espoliados e para os
sujeitos coletivos do MST), e de brilhos podres (como quando se aliou aos
arroubos da Operação Lava Jato).
Eu sei o que Fachin fez no
verão passado
Era
2020. Mais precisamente, num setembro como este. Fachin encaminha um relatório
ao então empossado presidente do STF, Luiz Fux. Na síntese de seu texto,
Fachin, que era o relator das ações da Lava Jato que chegavam ao Supremo, vai
advogar em favor da operação – que todos sabemos, foi uma verdadeira aberração
jurídica. No seu relatório, a avaliação dos trabalhos da Lava Jato eram
“pautados pela legalidade constitucional”. Afirmou mais: que os membros (Sergio
Moro, Deltan Dallagnou e os outros) combatem a “renitente garantia da
impunidade” que existe no Brasil.
Sinceramente, se me perguntarem se acho que estas
palavras são má-fé do ministro Fachin, respondo que não. Ingenuidade, talvez.
Imprudência jurídica e política, de certo. Todavia, mesmo que não fosse de “boa
intenção”, o certo é Fachin, entre outras desgraças que causou ao Brasil, votou
contrário e influenciou seus pares (em 05/04/2018) na rejeição do Habeas Corpus
(HC) 152752 que a seguir levou o presidente Lula para a cadeia de Curitiba; e
que, como consequência, elevou ao cargo máximo da República o pior ser humano
já existente, Jair Messias Bolsonaro, eleito também em 2018 (porque Lula não
pode – pelo acovardamento de Fachin e outros – concorrer à Presidência).
A
defesa de Fachin à Lava Jato era tão embaraçosa que ele não pode refutar uma
reportagem da revista Veja, em parceria com o The Intercept que trouxe à tona
um dos diálogos mais vergonhosos entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Na
conversa vazada havia uma referência dos membros da Operação ao ministro, hoje
presidente do Supremo. Em 13 de julho de 2015, Dallagnol comenta com os seus
colegas que teve um encontro com o ministro, cravando o seguinte: “Caros,
conversei 45 m com o Fachin. Aha, uhu: o Fachin é nosso!” [3].
Então. Sobre o Fachin, apontam para as estrelas.
Esforço-me em contemplar o céu. Contudo, o que vejo é o dedo apontado para um
astro “morto” há incontáveis anos-luz, mas que as consequências de seu “brilho”
ainda ofuscam a visão de tanta gente.
Ainda
assim, como a José Geraldo, sou um otimista. Sei que ouvirei novamente um dia o
tão vibrante: “Aha, uhu: o Fachin é nosso!”. E tenho fé que não será da boca
dos fascistas comemorando vitória do Flávio Bolsonaro. Espero que seja do povo
brasileiro, celebrando um Fachin corajoso, finalmente; sem medo de enfrentar os
grandes conflitos de hoje que se desdobram em tragédias no amanhã...
……………………………………...
Notas:
[1] O vídeo completo, você pode assistir por este link
da TV Resistência Contemporânea. Contudo, se desejar acompanhar apenas a parte
relacionada à crise no STF, adiante o vídeo para o minuto 49.
Clique em: https://www.youtube.com/watch?v=EZsBJWis6Nk.
[2] “A gente só vê o que tem cognição pra ver. (...) A
sra. não vê o que existe, mas o que recorta da realidade”. Esta foi a frase
icônica que alcançou milhões de visualizações em vários canais e redes de
televisão.
Clique em: https://x.com/brasildefato/status/1669327773062647811.
[3] Relembre os detalhes do vazamento do “Aha, uhu: o
Fachin é nosso!”.
Clique em: https://www.cartacapital.com.br/politica/novos-vazamentos-sao-suficientes-para-anular-processos-de-moro-diz-veja/.
Mestre em Direitos Humanos e Cidadania pela UnB, abraçado às epistemologias do Direito Achado na Rua; pós-graduado em Direito Público e graduado em Letras. Foi Secretário de Educação e Cultura em Cidade Ocidental.