“720 mil mortes não é verdade. No Brasil, nós tivemos pelo menos três vezes o número registrado oficialmente de mortes por Covid-19”, afirmou a pesquisadora.
Por Gabriel Gomes
Leia mais no portal ICL Notícias. Link na bio!
por Rui Abreu
Passados dez dias das eleições presidenciais estadunidenses e ainda com alguns
estados a terminar o apuramento, é já incontornável a retumbante vitória de Donald Trump.
Trezentos e doze grandes eleitores, cinquenta e três senadores, setenta e cinco milhões de
votos (vitória no voto popular), vinte e sete governadores e seis juízes da Suprema Corte dos
Estados Unidos nomeados por republicanos; são alguns dos números da nova legitimidade
institucional e política que sustenta Trump neste novo ciclo político.
Depois de ter perdido sua reeleição em 2020, como o povo devolveu a confiança política
a um ex presidente que atentou contra direitos básicos das mulheres, da população imigrante,
que tem dezenas de processos contra si no judiciário (onde tem até várias condenações) e que
contribuiu para a morte evitável de centenas de milhar de cidadãs e cidadãos durante a
pandemia do covid? Afinal, porque corre Trump?
1 – Neoliberalismo é seu nome
A chegada de Reagan ao poder em 1979 trouxe um aprofundamento do capitalismo num
formato neoliberal que colocou o estado totalmente a serviço do grande capital, em particular
do capital financeiro. Reduziu a capacidade de dinamização económica do estado em cenários
recessivos, entregou aos privados setores estratégicos da economia, cortou os programas de
apoio social, desmantelou as leis trabalhistas e as organizações de defesa da classe
trabalhadora; rebaixou as condições de vida da população colocando a classe trabalhadora
numa maior desproteção social, criou mecanismos de roubo do orçamento federal através da
dívida pública. Foi dentro desta composição económica e social que o P.I.B. norte americano se
multiplicou por nove, crescendo de três trilhões de dólares para vinte sete trilhões nestes
últimos quarenta e cinco anos.
Setorialmente os E.U.A. lideraram mundialmente transformações importantes na
economia em torno duma globalização que alimentava as taxas de lucro das suas
megacorporações. As Bigtech(s), então em crescimento, implantaram a economia digital, a
indústria deslocalizou-se para sul e oriente em busca de fatores de produção mais baratos, com
destaque para a mão de obra. O capital financeiro ocupou parcelas cada vez maiores da
economia, secundarizando o papel do estado como agente dinamizador e subjugando os
setores primário e secundário à lógica e prática da capitalização financeira.
A condição da classe trabalhadora ia acompanhando essas mudanças estruturais
económicas, sendo empurrada para a precariedade sem que sindicatos e comissões de
trabalhadores tivessem capacidade de resistência às alterações nas relações de produção que
o neoliberalismo impunha. O salário real foi desfalecendo, encontrando-se atualmente pouco
acima dos valores de 1980, retirando do fator trabalho a partilha da imensa riqueza criada nos
últimos quarenta e cinco anos. Tudo com a complacência da esquerda, que no centro do
império foi (e é) quase inexistente em termos organizados e não quis dar respostas às
dificuldades impostas ao povo. Este quadro económico neoliberal norte americano foi replicado
pelas economias ocidentais, dando origem a conjunturas semelhantes de intensa acumulação
de capital e empobrecimento generalizado da população na Europa e restante América.
É neste contexto que surge Trump e ressurgem os movimentos de extrema direita para
coletar apoio no estado de desesperança da população trabalhadora que não vê neste sistema
neoliberal a melhoria de suas condições de vida, tendo garantido para si e para as gerações
vindouras condições de vida piores que de seus pais, identificando na esquerda (normalmente
anémica de proposta) uma parte integrante do sistema. Um sistema capitalista que despeja
suas crises em cima de quem trabalha com ajustes fiscais cada vez mais draconianos
sustentados numa ideologia que individualiza os problemas e soluções, a qual não sofreu o
devido contraditório no debate e na proposta pela esquerda nas últimas décadas. A luta de
classes não esgrimida dos dois lados cria campo fértil para a extrema direita e condições para
a contínua degradação das condições de vida duma classe trabalhadora cada vez mais
politizada pelo neoliberalismo e neofascismo. Sem alternativa de esquerda e com perspetivas
de luta limitadas, os “trumpismos” surgem como catalisadores do descontentamento geral,
sendo a opção política que mais aparenta mudar o atual estado de coisas.
2 – A economia de Biden
Os indicadores liberais apresentam uma economia em recuperação no final do mandato
de Biden. A inflação, refletindo o corte de circuitos económicos com a guerra na Ucrânia
atingido 9.1% em junho de 2022 (sendo a maior dos últimos quarenta anos), situava-se em
setembro deste ano nos 2,4%. Também a taxa de desemprego acomodou-se entre os 3,8% e
os 5%, durante o mandato democrata, sendo considerada pelos analistas liberais como uma
situação de pleno emprego. O P.I.B. cresceu 6,1% em 2021 gozando do crescimento negativo
de -2,2% de 2020 provocada pelo impacto da pandemia da covid, de 2022 a 2024 cresceu
entre 2,5% e 2,9%, o que dá aos mesmos analistas o discurso de uma economia forte, de
crescimento sólido.
O que os indicadores liberais não mostram são os 25% de aumento do custo dos
produtos que constituem a cesta básica e os 30% de aumento do custo da energia, afinal a
inflação não é igual para todos; não mostram os quarenta e um milhões de cidadãos e cidadãs
norte americanas que se encontram em estado de pobreza, afinal o P.I.B. não cresce para
todos; não mostram um mercado imobiliário inflacionado pelos bancos e grupos de
investimento que vêm nos imóveis mais uma fonte de especulação e lucro, colocando os
preços inatingíveis para a maioria dos trabalhadores; não mostram uma classe trabalhadora
esmagada nas suas condições laborais que, para fazer face às despesas quotidianas, acumula
dois e três trabalhos para poder levar um salário digno para casa. Afinal o pleno emprego de
Biden é repleto de precariedade e miséria.
No plano externo, por obrigação imperial, impôs-se a estratégia da economia do caos
com a promoção da instabilidade e conflitos como método para atrasar o crescimento chinês. A
guerra económica à China tem criado reflexos inflacionários devido à forte interdependência
que existe entre as duas economias. O maior parceiro comercial dos E.U.A. tem sido a China
que só foi substituída pelo México após o início da guerra na Ucrânia. A exigência
estadunidense de separar economicamente as potências e seus campos de influência
consuma-se através da política belicista e das diversas guerras económicas que a casa branca
promove. O quadro de confronto com a China promete aumentar com a eleição de Trump,
assim como as contradições económicas que essa política externa provoca internamente,
sendo a inflação uma ameaça real para o poder de compra da classe trabalhadora.
3 – Porque não corre a esquerda?
Cansada está a análise sobre a queda do muro de Berlim e a consequente
desorientação política provocada em toda a esquerda mundial. De maior marca ficou o
acomodamento da esquerda aos lugares conquistados eleitoralmente e o seu afastamento da
classe trabalhadora.
O jargão liberal tomou lugar no discurso da esquerda e a radicalidade de proposta foi
substituída pela competência técnica, como se o papel da esquerda fosse agora o de fazer uma
melhor gestão de orçamentos neoliberais que a direita, cabimentando aqui e acolá uma
medida, uma assistência social ou subsídio. A esquerda tornou-se defensora dum capitalismo
humanizado, ente que conseguiu existir em tempos idos da guerra fria e se materializou nas
sociais democracias europeias da segunda metade do século vinte. Na política global de hoje o
“capitalismo de rosto humano” não tem qualquer lugar, sendo seus preconizadores uma
espécie em vias de extinção.
Participando o movimento global que a política fez para a direita, a esquerda perdeu
suas âncoras ideológicas, suas referências políticas e seu trabalho de base que lhe permitia ter
penetração social.
São desenvolvidos diagnósticos de conjuntura cada vez mais distorcidos pelos
indicadores liberais, tomados como fieis tradutores das condições de vida das populações.
Crescimento do P.I.B. é encarado como determinante absoluto da boa política, retirando o
detalhe de quem ganha com esse crescimento; a taxa de desemprego é apresentada como
taxa de satisfação laboral, mesmo que a precariedade extrema esteja camuflada nesses
números; a inflação reveste-se de medidor do poder de compra, não contrastando seu peso em
rendas tão desiguais como as que existem atualmente.
Os objetivos deslocaram-se da disputa política pelo poder para a eleição de
representantes na democracia burguesa. As propostas tornaram-se inevitavelmente pouco
esclarecidas, seguindo os diagnósticos feitos de forma errada. Programas cada vez mais
pastosos surgem na incapacidade de comunicar com a classe trabalhadora, tentando com
medidas liberais acertar nalgum termo decisivo do voto. Propostas neoliberais como educação
financeira nas escolas, P.P.P.(s) e concessão de serviços públicos a empresas privadas
começaram a ser lugar comum em programas e governações de esquerda. A esquerda não só
deixou de apresentar uma proposta de sociedade diferente como foi assimilada e atualmente é
identificada como “O sistema”.
Até na autocrítica perdeu-se a referência, (aqui também me incluo). Termos como
“institucionalização”, “descaracterização”, “perda de identidade” e “afastamento das bases”
ofuscaram o bom velho “aburguesamento” que tão bem define o processo pelo qual passaram
a esmagadora maioria de partidos e quadros da esquerda ocidental.
É sabida a incapacidade transformadora da esquerda per si, não conseguindo seu
voluntarismo ultrapassar o tempo da luta de classes. São as contradições de classe que
determinam esse tempo de luta. Mas Trump e “trumpinhos” só correm na nossa insuficiência de
questionar e propôr a superação do capitalismo que hoje, perante o choque da socioesfera com
a bio e geoesfera, assume forma de extermínio. O neofascismo só cresce na mescla da
esquerda com o capitalismo neoliberal.
Também é sabido que o neofascismo de aparência antissistémica não passa de um
endurecimento político do projeto liberal, dando uma relação musculada entre o estado e a
classe trabalhadora, garantindo maiores margens de lucro para os bilionários, consolidando a
desigualdade social como objetivo a perseguir. Não é assim possível derrotar a política
neofascista sem combater a base económica liberal que a sustenta. A estratégia da frente
ampla para derrotar a extrema direita goza desse pecado original: tenta derrotar a cabeça
política neofascista alimentando seu corpo económico neoliberal.
Trump corre na nossa incapacidade de disputar maiorias sociais que não se revêem no
sistema, que nestas últimas eleições são dois terços da população: um terço que votou em
Trump e um terço de abstenção.
Esta é uma fase da luta de exigência teórica, de valores e de práticas. Clarividência na
proposta social e económica é fundamental para conseguir superar o mundo trumpista que se
edifica. Medo e aburguesamento só garantirão que regimes neofascistas se imponham nos
tempos que aí vêm.
Fontes:
. https://pt.tradingeconomics.com
. https://pt.countryeconomy.com/governo/pib/estados-unidos
. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz0m3l7r5yko
. https://www.census.gov/library/publications/2024/demo/p60-283.html
. https://www.statista.com/chart/26882/us-energy-costs-natural-gas-gasoline-electricity/
Por Rui Abreu
1 - O gigante com pés de petróleo
Em 1870, em Cleveland, Ohio, era
formada a mais importante e poderosa empresa do mundo na viragem do século.
John D. Rockefeller registou a Standard Oil Company após adquirir das mais
diversas formas (muitas ilegais) quase todas as empresas de exploração e
distribuição de petróleo e gás do ainda jovem país, os Estados Unidos da
América. Com um domínio de cerca de 90% da produção e distribuição de petróleo,
gás e seus derivados, a Standard Oil posicionava-se ao lado de outros titãs
energéticos mundiais. A par do consórcio anglo persa que operava no Irão e hoje
subsiste como BP e do consórcio franco neerlandês que explorava no Mar Cáspio e
em solo birmanês (atual Myanmar) e que conhecemos como Shell, marcaram todo o
desenvolvimento industrial e comercial do mundo.
O início do século vinte brindava
Rockefeller com a distinção do primeiro bilionário da história. Famílias como
Nobel, Rothschild, Família Real Holandesa e Família Real Inglesa acompanhavam o
bilionário nessa ascensão de riqueza e poder global, em torno dos recursos que
estariam no centro de toda a geopolítica do século vinte. Ocupações foram
feitas, acordos assinados, guerras começadas por causa desses recursos e
guerras ganhas por quem os detinha. O mapamundo foi redesenhado de acordo com
esses conflitos, refletindo as riquezas geoestacionárias presentes no subsolo e
o domínio das potências sobre elas. ISRAEL É PARTO DESSA DISPUTA GLOBAL.
Os impérios, em rota de colisão,
fervilhavam internamente com os movimentos operários a surgirem, questionando a
ordem do brutal capitalismo nascida na revolução industrial e que dariam origem
a partidos socialistas e comunistas, organizando assim a luta de classes. Os
E.U.A. saíram quase intocados dos dois conflitos mundiais que as potências
tinham deflagrado, não sofrendo em seu território batalhas ou bombardeamentos
(com a exceção do episódio de Pearl Harbor1). Os combustíveis
fósseis tiveram um papel fundamental na motivação desses conflitos e também na
sua resolução. Não foi um acaso que E.U.A. e U.R.S.S., que detinham em seus
territórios vastas reservas e fortes indústrias de exploração, refinação e
distribuição de petróleo e gás, foram os grandes vencedores da segunda Grande
Guerra e se estabeleceram como os polos políticos, económicos e militares do
mundo.
No pós Segunda Grande Guerra emergem
assim duas superpotências detentoras de poderosas indústrias de petróleo e gás,
as quais não foram alheias à vitória no maior conflito armado da história e na
afirmação de seu poder no mundo. Médio Oriente, África e América do Sul
tornavam-se nas décadas seguintes palco de disputa entre o bloco capitalista e
o bloco socialista a cada nova descoberta de jazidas petrolíferas e cada novo
campo de gás. De regimes antagónicos, as superpotências e seus blocos
alimentaram suas economias com a mesma matriz fóssil, contribuindo
decisivamente para a emissão desmesurada de gases de efeito estufa que tanto
contribuíram para as alterações climáticas. Estas vieram para ficar e, como
sabido há décadas, para determinar nossos futuros.
Os E.U.A. haveriam de suplantar seu
rival na disputa pela hegemonia global e impor o seu modelo de produção ao
mundo. A formidável máquina de guerra estadounidense garantia presença
permanente das corporações norte americanas nos países detentores de petróleo e
gás. As invasões do Iraque de 1990 e
2003 promovidas pela família presidencial Bush são prova da dependência
imperialista dos recursos energéticos fosseis. Também o apoio incondicional ao
regime sionista israelita ao nível do genocídio faz parte do modelo de domínio
do Médio Oriente, região historicamente com as maiores reservas de
hidrocarbonetos.
O império procura controlar a
exploração, a refinação (objeto maior no domínio do circuito económico do
petróleo, sendo a fase onde o produto recebe maior valor acrescentado e que
estabelece o preço a que circulará comercialmente o barril) e a distribuição. É
nessa procura que se enquadram as sanções de 2018 feitas por Trump à Venezuela
após os acordos de cooperação assinados entre o governo Maduro e o governo
Chinês que previam investimento na capacidade de refinação venezuelana. Além de
tentar impedir que a economia chinesa desembarque na América Latina e acesse
mais às suas riquezas, os E.U.A. lutam para manter o primeiro lugar do ranking
de países com maior capacidade de refino no mundo (cerca de 18 milhões de
barris/dia), garantindo deliberação sobre os preços globais.
Os Estados Unidos são o maior
produtor do mundo de petróleo, com cerca de 19% da produção mundial, o maior
refinador com cerca de 18% do refino global e o maior consumidor com cerca de 20% do consumo mundial2.
2 – Riqueza para uns,
problema para todos
Despertos pela ciência para o novo e
determinante problema das alterações climáticas, governos do mundo inteiro
assinam acordos e prometem fazer a transição energética, sempre quando a
economia permitir, sempre quando o lucro deixar. Uma visão liderada pelo
império norte americano de exploração até ao fim (não do planeta e nem sequer
dos recursos, mas sim da habitabilidade) tomou conta do mundo, criando um
caminho de extinção em massa cada vez menos evitável.
Desde a assinatura em 1997 do
protocolo de Kyoto, Japão, que os países mais industrializados criaram metas de
redução de emissão de gases de efeito estufa. As modestas metas de redução
variavam entre 6% e 8% para países como Japão, E.U.A., Reino Unido e Bélgica
enquanto outros países ainda tinham margem para aumentar a emissão em 10% como
a Islândia e 8% como a Austrália. Os então chamados países em vias de
desenvolvimento como o Brasil, China e Índia não tinham metas determinadas,
cabendo a cada governo estabelecer medidas de controlo do problema. Passadas
quase três décadas e muitos acordos depois, e todas as metas não cumpridas, o
planeta bate recordes de temperatura pelo 14º mês consecutivo e a realidade
climática excede todos os modelos matemáticos criados.
O acordo de Paris de 2015
estabeleceu metas mais ambiciosas mas ainda desajustadas com a realidade. A
promessa de redução de 50% das emissões até 2030 tinha um pecado original: os
50% eram relativos às emissões de 1990 que eram significativamente menores às
emissões à data do acordo. Mesmo assim, ninguém chegará perto de cumprir as
metas definidas em 2015, metas essas muito insuficientes perante a realidade
climática atual e a avaliação da ciência.
O tão temido aumento da temperatura
média do planeta de 1,5º Celsius acima dos níveis pré industriais que sufoca os
oceanos e descongela o permafrost3
que estava previsto para os próximas séculos (ou milénios) está chegando muito
mais cedo e com ele as catástrofes naturais sucedem-se pelo globo inteiro.
Cheias, secas, incêndios e tempestades tornaram-se visitas frequentes do jornal
da noite. Realmente perigosa é a situação do permafrost siberiano que descongela rapidamente e retém calculadas
2 bilhões de toneladas de metano, que entrando em contato com a atmosfera
desequilibraria o clima muito além da extinção humana.
Em 2023 o Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente (PNUMA) no seu Relatório (anual) sobre a Lacuna de
Emissões, que identifica a distância entre a previsão de emissões e os
compromissos políticos atuais dos países de redução de emissões, calculando
onde deveriam estar essas emissões para
cumprir a meta de aquecimento inferior ou igual a 1,5º Celcius, alerta que se
não houver medidas mais efetivas o aumento de temperatura será de 2,5º Celsius
a 2,9º Celsius, o que representará a falência biológica do planeta.
A situação não se compagina mais com
a divisão mundial de emissões prevista em Kyoto: reduções até 8%, alguns países
tinham metas de aumento e outros não tinham metas. Como infelizmente os países
pouco industrializados não poderão sustentar seu desenvolvimento económico nos
combustíveis fósseis, será justo serem os últimos países a poderem fazê-lo,
colocando a pressão da descarbonização econômica nas potências mundiais. O G20
é responsável por 80% das emissões globais, destacando-se pela ordem de maiores
emissores a China, E.U.A., U.E. e Índia. Sendo certo que só num mundo edílico
esse plano global seria estabelecido, cabe a cada país descarbonizar a sua
economia o mais rapidamente possível e elevar o tema na agenda política
mundial, responsabilizando e exigindo dos governos dos países com maiores
emissões políticas efetivas de descarbonização.
3 – Transição de esquerda
O capitalismo na sua versão verde
abre novos campos de negócio assentes num velho modelo de exploração.
Procurando manter o modelo de concentração das mega corporações na produção de
energias limpas, são usadas para tal as empresas petrolíferas, transformando-as
em empresas de energia. A concentração da produção de energia em grandes pólos
corporativos tem sido o instrumento de controlo do capital em relação ao acesso
dos povos às fontes energéticas e de domínio geopolítico imperialista. Na
lógica exploratória dos hidrocarbonetos é mais assimilável que haja grandes
pólos produtivos atendendo que o petróleo e gás têm localização definida no
território. Na era das energias alternativas, as fontes naturais energéticas
encontram-se à nossa volta, em todos os lados, devendo ser estimulada a
produção local, podendo e devendo ser eliminado parte significativa do
desperdício energético da distribuição. A defesa de comunidades energéticas,
cooperativas de produção de energia limpa e domicílios energeticamente autónomos
é uma exigência de uma política de transição mais justa, democrática e
eficiente.
No plano global, de nada adiantará as
políticas de compensação financeira sobre danos ambientais dos maiores
emissores assim como se revelam ineficazes os mercados de carbono, solução
mercantilista que o capitalismo (com o império à cabeça) criou para lucrar com
a emergência climática. Só a reposição ambiental e redução drástica de emissões
pode ajudar a amenizar o problema. O metano e o carbono revelam-se pouco
sensíveis a negociações e, ao contrário de todas as outras transições motivadas
pelas lutas sociais, esta transição tem prazo de validade, não havendo espaço
para dúvidas pseudocientíficas nem para o jogo do empurra entre países na
responsabilização do processo.
A esquerda brasileira (e mundial
também) parece não querer sair do estado de negacionismo climático,
recorrendo-se de reservas petrolíferas para avaliar o potencial de
desenvolvimento económico de países, não acreditando que não dá para repetir os
marcos de desenvolvimento das potências mundiais e que se for explorada um
ínfima parte dessas reservas haverá uma cobrança brutal sobre a biosfera.
O “cloroquinismo” climático tem de
ser derrotado para que se abra uma nova frente da luta de classes. Só a
esquerda pode defender a vida da classe trabalhadora perante as intempéries,
com planos de deslocação massiva de parte da população que vive nas regiões de
risco, só a esquerda pode apresentar proposta de descentralização econômica que
acompanhe a solução urbanística, só a esquerda pode apresentar caminho para a
qualificação económica e de emprego em torno da transição energética, só a
esquerda pode democratizar o acesso às novas energias, só a esquerda pode
questionar o atual modelo energético submisso aos E.U.A..
A luta por uma transição energética
que proteja vida dos povos, democrática e justa também é uma luta anti
imperialista.
1 Base militar estado unidense situada no Havaí
que sofreu um ataque da força aérea japonesa em 7 de dezembro de 1941 e
catapultou os E.U.A. para a Segunda Grande Guerra.
2 Dados de 2022
3 Parte do solo terrestre que cobre 25% do
hemisfério norte que está congelado há dezenas de milhar de anos, consequência
da última era glacial. Encontra-se atualmente a descongelar a velocidade
elevada devido ao aquecimento global.
Fontes:
. https://www.unep.org/pt-br/resources/relatorio-sobre-lacuna-de-emissoes-2023
. https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/anuario-estatistico/arquivos-anuario-estatistico-2023/secao-1/secao-1.pdf
Redes de controle = opacidade, classificação, predição e outros bichos cibernéticos
Prof/Pr Lenon Andrade – Campina Grande /PB
A gente vive numa sociedade controlada por coorporações que utilizam tecnologias digitais para impor a lógica do acúmulo instrumentalizada pelo controle cibernético sobre os usuários de computador (aqui o computador é também o tablet e o celular, além de qualquer dispositivo que tenha um processador imbutido). Como diz o professor Sergio Amadeu da UFABC, a internet é uma rede de controle, mas, também é uma rede ambivalente, explico!
Percebam que falei uma ruma de coisas não triviais, porém plenamente explicáveis. OK, vamos iniciar de trás pra frente:
1) Ambivalência → do ponto de vistas das redes digitais é a possibilidade de aplicá-las em sentidos opostos, exemplo: as redes podem e são usadas para o bem ou para o mal, portanto, podem e são usadas pelas corporações (bigTecs) para controlar seus usuários, mas, também podem ser usadas em senitdo contrário, para liberar os usuários para o uso livre da rede ou, digamos, uso democrático da internet, como era a TecnoUtopia dos anos 90 até meados dos anos 2000. Assim, a característica ambivalente das redes AINDA permitem o estabelecimento de uma resistência tecnopolítica a serviço da democracia e do processo civilitório.
2) Algoritmo → Vamo logo desmistificar o monstro. Algorítmo nada mais é do o CÓDIGO ESCRITO pelo programador de computador...pensem numa receita de bolo (conjunto de passos/instruções para se montar, misturar os ingredientes, definir tempo de forno etc). Todo conjunto de instruções lógimente ordenadas é umALGORÍTMO. E, se é logicamente ordenado, então também é inteligível, portanto, nada do outro mundo. O problema é quando o algorítmo é COMPILADO e os donos do código não pérmitem a sua auditagem. É, pois, neste contexto cibernético que ocorre o controle porque, o algoritmo compilado é linguagem de máquina, não dá para fiscalizar, é absolutamente OPACO!
3) Opacidade → Vejam a seguinte fórmula: =se(nota do aluno >= 7, então, “aprovado”, senão, “reprovado”), fim-se; Fácil de entender, não? Agora, imaginem se a mesma fórmula fosse escrita assim: ■▓$%▓$)▓(&■%%■$■$@%&■▓$%▓$)▓(&■%%■$■$@%&... A opacidade impede qualquer possibilidade de auditoria, fisclização e controle por parte das instituições sobre as atividades cibernéticas das BigTecs. Há um lema na TecnoUtopia Hacker que diz o seguinte: “Na rede, quem controla o código, controla o poder!” O problema não é o algoritmo ou a inteligência artificial, que nada mais é do que algorítmo complexo escrito pelo ser humano com a ajuda das máquinas. O verdadeiro perigo está nas REGRAS OPACAS, sem transparência alguma, de quem controla o código! Por isso que, corretamente, o ministro Flávio Dino falou ao Twitter, “danem-se” seus TERMOS De USO..! O Estado, a população e a Democracia não podem permanecer a mercê do controle cibernético das BigTecs!
Para terminar esta pequena contribuição sobre um assunto tão “complexo” e delicado para a manutenção da Democracia e a permanência da civilidade, afirmo que a opacidade algorítmica das corporações são deletérias ao processo civilitório porque suas configurações são carregadas de intecionalidade mercantilista, com vies idelógicos e político partidário que podem descambar para vieses xenofóbicos, racistas, regioso/fundamentalistas, aporofóbicos (ódio ao pobre), misóginos, homofóbicos, etc. Tudo isso porque é possível configurar essas máquinas e softwares para classificar e predizer tendências, comportamentos e escolhas dos seus usuários.
Nosso lema, portanto, deve ser, controle e transparência para os poderosos (BigTecs e corporações)!
Liberdade (direito de ir e vir nas redes) e garantia da inviolabilidade da intimidade (opacidade plena) para o cidadão!
Prof/Pr Lenon Andrade – Campina Grande /PB
Trégua de seis meses nas pesquisas sobre IA não vai resolver nada. Olhe com ternura e compaixão para o mundo à sua volta, pois ele vai desaparecer num suspiro
O Estado de S. Paulo, 18/5/2023
Eugênio Bucci JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP
De umas poucas semanas para cá, o historiador israelense Yuval Harari escreveu um par de artigos afirmando que a inteligência artificial (IA) “hackeou” o “sistema operacional” da espécie humana. Tratase de uma metáfora: “sistema operacional”, aqui, significa linguagem. A máquina finalmente dominou nossas formas de expressão e comunicação – e o perigo que isso representa é inédito, colossal, maior do que qualquer outro que tenhamos conhecido antes.
Harari tece raciocínios com uma limpidez irresistível. Autor de best-sellers mundiais, como Homo Sapiens (publicado no Brasil pela Companhia das Letras), tem o dom de tornar palatáveis, acessíveis e até mesmo envolventes alguns dos mais excruciantes dilemas do nosso tempo. O primeiro dos artigos, originalmente publicado no The New York Times, foi traduzido em jornais brasileiros. O Estadão o estampou em suas páginas no dia 28 de março, com o título de O domínio da inteligência artificial sobre a linguagem é uma ameaça à civilização.
Pouco depois, o escritor liderou um abaixo-assinado transnacional pedindo uma trégua de seis meses nas pesquisas sobre inteligência artificial. Em seguida, voltou à carga com um novo texto, desta vez no semanário inglês The Economist (de 28 de abril), com a mesma mensagem: uma tecnologia capaz de se apossar da linguagem humana tem tudo para encilhar a humanidade inteira.
O argumento procede. Todos os mitos, todas as religiões e todas as culturas que existem ou já existiram sobre a face da Terra não são feitos de aminoácidos ou de cromossomos, mas de signos linguísticos. Esses signos vertebram o “sistema operacional” dos nossos sistemas de fé, da nossa expressão artística e da nossa identidade – são o tecido da nossa consciência. Logo, softwares e hardwares que se apropriem desse “sistema” poderão mandar em nós. Eis por que, na opinião de muita gente bem informada, a inteligência artificial se equipara aos armamentos nucleares em potencial destrutivo.
Mas isso não é nem a metade da missa de réquiem que mal começou. Se olharmos a questão de frente, notaremos que Yuval Harari poderia ter dito mais do que disse. O desenvolvimento do chamado machine learning, do big data e dos equipamentos autoprogramáveis segue um curso irrefreável. Nenhum abaixo-assinado poderá estancá-lo. O ponto de não retorno talvez já tenha ficado para trás.
Para entender a irreversibilidade do processo tecnológico, é bom nos lembrarmos daquele outro processo, o jurídico, tal como foi descrito por Franz Kafka. A despeito da existência ou não de provas, a trama judicial ia em frente, sem que ninguém lograsse detê-la. A tecnologia, como o direito, é uma criação humana. Diferentemente do direito, porém, fica mais forte à medida que se desumaniza e se liberta das pessoas.
Martin Heidegger pressentiu algo parecido quando falou do poder da técnica, na primeira metade do século 20. Trezentos anos antes, Thomas Hobbes notou que o Estado, possuído pelo monstro Leviatã, faria o que bem entendesse, contra quem quer que fosse. A sensação de que o engenho humano fabrica “monstros” que ganham vida própria não é nova. Adam Smith vislumbrou uma tal “mão invisível” puxando os fios do mercado. Karl Marx detectou um “sujeito automático” escondido em alguma reentrância entre a mercadoria e o capital.
A realidade lhes deu razão. A burocracia que Max Weber viu com uma ponta de otimismo logo se degradou em stalinismo e devorou seus pais, como se confirmasse a maldição do romance Frankenstein, de 1818, em que Mary Shelley retratou a criatura que subjuga o criador. Nas tragédias da Grécia Antiga, a fatalidade que não tinha governo atendia pelo nome de destino. Na modernidade, você pode chamá-la de inconsciente. O pensamento até entende o que contempla, mas não tem como impedir.
E aqui estamos nós, cara a cara com a inteligência artificial. A possibilidade de domála é exígua. Ela conseguiu o feito de retirar a linguagem humana do domínio dos falantes de carne e osso. Ela, a linguagem, que só podia existir através de nós, agora poderá viver além de nós. Não subestimemos o tamanho deste pequeno passo que será um grande salto para a tecnologia. O linguista Ferdinand de Saussure ensinou que aquele que inventa uma língua e a coloca em circulação perde o controle sobre ela. Em breve, poderemos perder o controle sobre as máquinas que aprenderam a falar a linguagem que era só nossa.
A inteligência artificial automatiza protocolos que eram humanos na origem e deles extrai predições eficazes, em escalas progressivamente mais velozes e mais agigantadas. Ela cresce e se complexifica dentro dos bunkers privados e opacos das big techs – ou dentro dos subterrâneos dos mais bem guardados segredos de Estado, também opacos. Não há força política na atualidade que consiga quebrar essas duas opacidades simultaneamente. Não, uma trégua de seis meses não vai resolver nada. Nossas chances são mínimas.
Olhe com ternura e compaixão para o mundo à sua volta, porque ele vai desaparecer num suspiro.