quinta-feira, 23 de abril de 2015

PL 4330: Câmara aprova terceirização da atividade-fim e estende regras para empresas públicas

na Carta Maior

O projeto carrega a digital dos empresários:' a mais recente derrota dos trabalhadores teve amplo apoio do PMDB e contou com a virada de voto do PSDB.

Najla Passos
Marcos Fernandes / ObritoNews
O plenário da Câmara aprovou por 230 votos a 203 o “emendão” ao Projeto de Lei (PL) 4330/04, que libera geral a precarização nas relações de trabalho: possibilita a terceirização das atividades-fim das empresas, diminui a quarentena para “pejotização” do quadro de funcionários e reduz a arrecadação de imposto de renda do executivo federal, entre outras medidas.
 
O governo até se esforçou para evitar o resultado. Enviou à Câmara os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, das Comunicações, Ricardo Berzoini, e da Aviação Civil, Eliseu Padilha. As negociações foram intensas durante todo o dia. Partidos de esquerda como o PDT e o PSB, que haviam votado a favor do texto base do PL 4330/04, reviram suas posições e se colocaram contrários à liberação total da terceirização.
 
Mas a virada de voto do PSDB, que até a semana passada garantia que era contrário à terceirização da atividade-fim, acabou por garantir a vitória da oposição. “O projeto carrega a digital dos empresários”, criticou o líder do governo, deputado José Guimarães (PT-CE), que durante os debates tentou convencer tanto a oposição quanto a base aliada a dialogar e atender às reivindicações dos trabalhadores.
 
Não convenceu nem mesmo o PMDB, que subscreveu o “emendão” ao lado do relator do PL 4330/04, deputado Arthur Oliveira Maia (SD-BA), do partido do deputado Paulinho da Força, o presidente da honra da Força Sindical, a central pelega que, ao contrário da posição defendida pelas demais (CUT, CGT, Nova Central, Conlutas e Intersindical, entre outras), apoia a terceirização defendida pelo setor empresarial.
 
O mesmo PMDB do presidente da casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), bastante criticado por conduzir a sessão de forma truculenta e parcial. Foi acusado por diversos parlamentares, incluindo o líder do governo, do PSOL e a do PCdoB, deputada Jandira Feghari (RJ), de cortar a palavra daqueles que defendiam posição diversa da dele. E de recolocar em pauta assuntos que já estavam deliberados.
 
Caso, por exemplo, da extensão ou não dos efeitos da matéria para o setor público. Apesar da casa já ter deliberado, na semana passada, que as empresas públicas e de economias mistas não ficariam sujeitas ao efeitos do PL,  Cunha colocou em votação emenda do líder do PSDB, deputado Carlos Sampaio (SP), que estende os efeitos da matéria aos terceirizados do setor público. A emenda foi aprovada.
 
“Nós estamos criando um monstrengo, um ‘Frankstein’ jurídico”, protestou o líder do PSOL, deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), para quem Eduardo Cunha se comportou como um verdadeiro “monarca do regimento”, conduzindo a sessão ao seu bel prazer. “Esse tipo de autoritarismo reflete na qualidade do trabalho que estamos fazendo aqui”, reclamou Alencar.
 
Efeitos nefastos
 
As emendas aprovadas pela Câmara afetam diretamente a arrecadação do governo federal, já bastante comprometida em tempos de ajuste fiscal. Isso porque o “emendão” diminui o recolhimento do imposto de renda antecipado na fonte de 1,5% para 1% para tercerizados das áreas de limpeza, conservação, segurança e vigilância.
 
Os principais prejudicados, no entanto, são mesmo os trabalhadores brasileiros. Além de permitir a terceirização em todas as atividades da empresa, o que deve ampliar o percentual de trabalhadores precarizados para cerca de 75% do total em questão de cinco anos, o “emendão” reduz de 24 para 12 meses a quarentena que deve cumprir o ex-empregado que era contratado via Confederação das Leis do Trabalho (CLT), com todos os direitos garantidos e agora será readmitido de forma precarizada.
 
Facilita, portanto, que a empresa possa mudar o seu quadro de funcionários para um modelo que não favorece em nada o trabalhador, popularmente apelidado de “pejotização”. A pejotização ocorre quando o empregador demite o trabalhador contratado via CLT e o readmite como “pessoa jurídica”, ou seja, sem a garantia de direitos históricos como aposentadoria, fundo de garantia e seguro-desemprego, dentre outros.
 
Provocação partidária
 
Durante a votação do “emendão”, os deputados do PT, PCdoB e PSOL que eram contrários à matéria ergueram cartazes representando à carteira de trabalho, patrimônio conquistado pelos trabalhadores e, agora, prejudicado pela matéria que libera geral a terceirização. A oposição, entretanto, não hesitou em contra-atacar.
 
Líder da minoria, o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) chegou a pedir uma carteira emprestada para protestar na votação das medidas de ajuste fiscal do governo, prevista para ocorrer daqui a 15 dias. Segundo ele, as medidas também retiram direitos dos trabalhadores. “Vamos ver como votarão esses deputados que hoje erguem aqui essas carteiras de trabalho”, provocou.
 
 
Tramitação no Senado

 
O PL 4330/04 agora segue para o Senado. Teoricamente, se for aprovado sem alterações, vai para sanção presidencial. Mas o presidente da casa, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), já afirmou que não irá permitir a aprovação da terceirização “ampla, geral e irrestrita”. Resta saber se o seu partido será capaz de pressioná-lo a mudar de ideia.
 
Confira aqui a lista de deputados, por partido, que votaram contra ou a favor da proposta

1º de Maio: CUT e movimentos sociais organizam Marcha d@s Trabalhador@s

no Portal CUT-DF
A aprovação do PL 4330 na Câmara, com liberação total para subcontratações e para precarização do trabalho, reforça a importância da Marcha d@s Trabalhador@s programada para o 1º de Maio, com concentração inicial às 9h na Torre de TV em Brasília. Para organizar os detalhes dessa grande manifestação popular contra o retrocesso e por avanços políticos e sociais, a CUT Brasília, os quase cem sindicatos, federações e confederações filiados e as entidades representativas dos trabalhadores sem terra, dos estudantes e da juventude, das mulheres, dos advogados e outras realizam reunião nesta noite, às 19h, no auditório Adelino Cassis, no Conic.
“Esperamos um grande comparecimento de dirigentes e representantes dos movimentos sindicais e sociais nessa reunião organizativa. Vamos fazer este ano uma retomada vigorosa do 1º de Maio de lutas, com fortes manifestações populares em defesa dos interesses dos trabalhadores”, afirma Ismael César, secretário de Políticas Sociais da CUT Brasília.
A Marcha d@s Trabalhador@s já vem sendo preparada há um mês pela CUT Brasília e por entidades dos movimentos sociais da Capital e do entorno, para representar um grande protesto sindical e popular contra ataques aos direitos e conquistas dos trabalhadores, como o PL 4330, as MPs 664 e 665 do governo federal que limitam acesso a benefícios e seguro-desemprego, a chamada ADI pró-Rollemberg que afeta conquistas dos servidores distritais.
A Marcha servirá também para impulsionar  as lutas por reforma política, para combater corrupção e o poder econômico nas eleições; pela manutenção das estatais, como Petrobrás, Correios e Caixa; pela reforma agrária e demarcação de terras indígenas e de quilombolas, e pela democracia, que vem sendo atacada por golpistas, com apoio do oligopólio das comunicações.
“A conjuntura é grave com ataques incessantes da direita, dos setores empresariais, sejam das indústrias, dos bancos, latifúndios, da comunicação e do agronegócio, contra os trabalhadores e os avanços sociais conquistados no país. Por isso, programamos o 1º de Maio de luta, com grande manifestação de rua dos trabalhadores e trabalhadoras. Não aceitaremos o atraso e a miséria para milhões de brasileiros e brasileiras enquanto uma pequena parcela de pessoas segue enriquecendo a custa de maior exploração dos trabalhadores. Queremos um país justo, com distribuição de renda, mais emprego de qualidade, mais políticas sociais, mais proteção e garantias ao trabalho, mais desenvolvimento econômico, mais igualdade de direitos e oportunidades para todos”, afirma Rodrigo Britto, presidente da CUT Brasília.
Fonte: CUT Brasília

Consumismo e Pós- Modernidade Acrítica

por José Gilbert Arruda Martins

"Eu Duvido, Logo Penso, Logo Existo"

René Descartes (1596 - 1650), quando escreveu, ou pensou na frase, vivia uma sociedade autoritária, onde o absolutismo real podia tudo, ou quase tudo.

A frase, do século XVI, é, a meu ver, de grande atualidade, vivemos uma sociedade que, por causa de vários fatores, entre eles o consumismo, parece não pensar, não raciocinar o que faz ou o que diz.

Tudo, ou quase tudo, é para ontem, ninguém tem mais tempo a "perder".

Tem algum vencedor, nesse comportamento, onde a sociedade deslumbrada com o consumismo, parece não conseguir enxergar outros valores que não seja os que levem a ganhos individuais?

A pós-modernidade capitalista, esconde a importância da história, da economia e do entendimento do funcionamento da máquina de moer gente.

Vivemos como máquinas que produzem, dia a dia somos impulsionados a correr pela sobrevivência sem me importar com quem está ao lado, atrás ou na frente.

Somos como gado ao matadouro, somos fortes e não temos a consciência da nossa força.

A suposta beleza de poder ganhar um pouco e poder consumir, me amordaça e desorganiza. Não tenho tempo para pensar a política.

É natural que a política seja feita por "eles", não me interessa a política. "Vou votar por que sou obrigado, se não fosse, aproveitaria melhor o dia da eleição".

A pós-modernidade capitalista, principalmente agora com a tentativa de ampliação do sistema de terceirização da mão de obra, e que tem a arrogância de defender que o progresso e ganhos econômicos serão para todos, continua sua caminhada rumo ao lucro e mais lucro, moendo trabalhadores e trabalhadoras.

O professor francês Thomas Piketty, autor do livro "O Capital do século XXI", defende na sua obra exatamente o contrário do que pregam os defensores da terceirização, a concentração de riqueza hoje é uma das mais espetaculares da história, quanto mais produção econômica e mais progresso, mais concentração e mais pobreza.

Como provocar, em consumidores das "delícias" - capitalistas, smartfones, carrões, facebook, whatsapp, tablets etc. -, o mínimo de debate crítico sobre a realidade social que nos cerca? uma realidade recheada de todo tipo de mazelas e desrespeitos?

Como fazer pensar temas importantes, que, no presente e no futuro, poderão atingir em cheio a todos, como é o caso da terceirização?

A divisão de classes, tão "esquecida", que sempre existiu e que está aí presente, a quem interessa saber e conhecer?

O enriquecimento absurdo de uma minoria, em detrimento do trabalho e da vida de uma maioria que é explorada, principalmente os jovens, sempre existiu e cresce a cada dia, mas a quem interessa o debate?

A classe trabalhadora, historicamente, sempre teve grandes dificuldades de organização, da década de 1980 aos dias presentes, os sindicatos minguaram, uma prova foi a facilidade de aprovação da PL 4330 na Câmara dos Deputados. Como fazer com que a sociedade e, a própria classe dos trabalhadores, se interesse por esse debate?

Estamos, portanto, diante de um grande impasse, de um lado temos o deslumbre com as novas tecnologias e o consumismo, mesmo que a maioria encontre grandes dificuldades para consumir, e do outro a tentativa do grande capital nacional e internacional, de nos aprisionar e explorar ainda mais, o que fazer?

Será que seremos capazes de enxergar as armadilhas do sistema capitalista global a tempo de uma reação?

Será que seremos capazes de analisar que o sistema que nos deslumbra é o mesmo que nos explora?

Não resta dúvida que o consumo é importante. Ele produz mais empregos, por exemplo. Mas não podemos perder de vista a organização e o pensar as estruturas de funcionamento do sistema.

"É no consumo que o capitalismo mostra toda a sua pujança. É na cultura do prazer que o capital se locupleta. A sua incrível capacidade de se transformar, adaptar, reinventar é vista como em um espelho na cultura do consumo" (Barros, 2014)








Prometendo modernizar lei, terceirização no México consagrou precarização, diz especialista

no Portal da CUT-DF
Por Vanessa Martina Silva, do Opera Mundi
Um banco inteiro operando sem nenhum funcionário. Foi desta maneira que o espanhol Bancomer (Banco do Comércio) levou a terceirização às últimas consequências em sua operação no México na década passada. Contra práticas semelhantes, o país realizou, em 2012, uma reforma da Lei Federal do Trabalho, regulamentando no país a “subcontratação”, nome pelo qual a terceirização é conhecido. Por outro lado, na avaliação da especialista em direitos trabalhistas mexicanos e professora da UAM-X (Universidade Autônoma Metropolitana campus Xochimilco) Graciela Bensúsan, a lei “aumentou a oferta de empregos precários”.
De acordo com dados oficiais, 16% da população economicamente ativa no México (8,32 milhões de pessoas) trabalham neste esquema de subcontratação precarizada. O número representa quase o dobro do que era verificado em 2004, quando, antes da reforma na legislação trabalhista, apenas 8,6% adotavam o regime. Além disso, 60% dos trabalhadores do país têm emprego informal, sem carteira assinada.
Para Bensúsan, no entanto, é difícil avaliar o impacto real da legislação porque o “México é um país onde as leis trabalhistas não são cumpridas. O fato de fazer uma reforma não implica de nenhum modo que haja mecanismo para o cumprimento e melhoria da prática trabalhista no país”.
Bancomer
O caso do Bancomer é o mais emblemático com relação à precarização no país. Em 2006, o banco criou uma operadora para a qual transferiu a totalidade de seus funcionários, passando a funcionar como se não tivesse funcionário algum.
Desta forma, se eximiu das responsabilidades trabalhistas com os funcionários e do pagamento das “utilidades” — bônus similar à PLR (Participação nos Lucros e Resultados) brasileira. A partir do “sucesso” obtido pela instituição, diversos outros bancos e empresas, como o Walmart, passaram a adotar a prática.
Apenas em 2012, após um trabalhador demitido ter acionado a empresa na Justiça, o Bancomer teve que reconhecer que era o patrão. O funcionário, então, obteve na Justiça a integralidade de seus direitos trabalhistas, e o caso criou jurisprudência.
Ambiguidade da lei
As mudanças foram feitas para evitar que episódios semelhantes ocorressem, já que a lei define que nenhuma empresa pode transferir todos os funcionários a uma contratista. Mas, “a lei não é específica: posso transferir todas as atividades e ficar só com trabalhador? O texto não responde isso”, aponta Bensúsan.
“Esta lei é própria de um regime autoritário, onde se deixa as coisas muito ambíguas, dando margem a interpretações discricionárias. Ou seja, não tem quem possa fazer com que ela seja cumprida”, aponta a professora, lembrando que no México as instituições sindicais não têm força e vivem contexto de “debilidade”.
Realidade
Apesar de criticar a precarização do mundo do trabalho, a pesquisadora considera que a terceirização é uma realidade em todo o mundo. “Não se pode deter esse fenômeno com nenhuma lei”, opina.
Em sua visão, deixar de regulamentar não vai, por si só, defender o direito dos trabalhadores diretos. “Penso que o problema fundamental está em fortalecer os sindicatos e as estruturas setoriais dos sindicatos”, ressalta.
Neste sentido, Bensúsan disse lamentar que o Brasil não tenha avançado mais no fortalecimento dos sindicatos durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff. “Creio que isso é fundamental para frear esse sentido perverso da terceirização, que fragmenta o espaço de trabalho de tal forma que é muito difícil a sindicalização”, afirma a especialista.
Sindicalização
Mesmo considerando irreversível, Bensúsan considera que a terceirização tem impacto menor em países como o Uruguai, que negocia salários “por meio de sindicatos que representam todos os trabalhadores do setor”. No país sul-americano, os conselhos nacionais de salário “evitam os efeitos perversos da terceirização para reduzir custos trabalhistas”, aponta Bensúsan.
No México, onde apenas 8.8% da população economicamente ativa  é sindicalizada, a reforma na lei não alterou em nada as regras da sindicalização, mas em um cenário de deterioração da qualidade do emprego e no qual a rotatividade trabalhista aumenta a dispersão dos trabalhadores, “é mais difícil organizar o trabalhador”.
Na prática, a precarização do trabalho atinge principalmente os setores para vulneráveis da sociedade, como mulheres, jovens, indígenas e camponeses, conclui Bensúsan.
(Foto: Flickr/ CC/Jesús Villaseca Pérez)
Fonte: Portal Forum

quarta-feira, 22 de abril de 2015

CUT se soma às manifestações pela descomemoração dos 50 anos da Globo

no Portal CUT-DF
No dia em que a TV Globo comemora seus 50 anos de existência (26/4), a Central Única dos Trabalhadores e outras 35 entidades comprometidas com a democracia e a liberdade de expressão participarão de ato político contra a emissora. As atividades foram definidas em reunião realizada na última quinta-feira (16) no auditório da CUT Brasília.
Chamada pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação – FNDC, a atividade terá início às 9h na Torre de TV, com a realização de oficinas de cartazes e camisetas, organização e distribuição de materiais. Ao longo do dia, os manifestantes farão caminhada até a W3 norte, onde fica a sede da emissora. Lá, os ativistas planejam intercalar falas políticas e intervenções culturais, sendo a última atração o samba da resistência.
“O monopólio dos meios de comunicação representado pelo grupo Globo, é extremamente prejudicial para a classe trabalhadora, que todos os dias é alienada com uma visão unilateral que visa atender aos interesses do grande empresariado e dos setores de direita”, explica o dirigente da CUT Brasília, Rodrigo Rodrigues.
DNA golpista
No manifesto assinado pelas entidades que participarão do ato, foram salientados momentos históricos em que a emissora se posicionou contra o interesse da liberdade, da democracia e de toda a sociedade brasileira.
Um dos fatos destacados foi o apoio do grupo Globo ao golpe militar de 1964, quando  Roberto Marinho, então editor do jornal “O Globo”, incentivou a deposição do presidente João Goulart, o que deu subsídio ideológico para que as forças armadas tomassem o poder.
Durante todo o tempo do regime, a rede de comunicação financiada pelo capital internacional, prestou total apoio aos militares, fato do qual só se retratou quando a opinião pública, subsidiada por iniciativas como a Comissão da Verdade, reconheceu as barbáries e condenou esse período da história do País.
A Rede Globo não se limitou ao período ditatorial para difundir seus ideais e prejudicar o povo. As primeiras eleições democráticas após os anos de chumbo, em 1989, foram descaradamente manipuladas pela emissora, que percebeu que um metalúrgico chamado Luís Inácio Lula da Silva tinha chances de ocupar o maior cargo do país.
Assustados com a crescente campanha de Lula, a emissora editou os debates e entrevistas, além de trabalhar com a assessoria do adversário, Fernando Collor de Mello, como o diretor da TV Globo na época, José Bonifácio de Oliveira, mais conhecido como Boni, admitiu em entrevista: “Existia uma grande dificuldade porque o Lula era do povo e o Collor era autoridade. Então, nós produzimos um suor na camisa do Collor e enchemos a pasta dele de folhas em branco, para parecer que se tratavam de denúncias contra Lula”, afirmou o diretor.
“Até os dias de hoje, o grupo Globo criminaliza os movimentos sociais e o movimento sindical. No caso dos trabalhadores, o jornalismo da rede que tanto se diz imparcial e defensor dos direitos da população, trata as greves como caso de polícia, destaca os possíveis transtornos ocasionado pela ausência dos profissionais e deixa de noticiar o dia a dia daqueles trabalhadores, as dificuldades pelas quais passam e os reais motivos que os fizeram protestar e paralisar suas atividades”, afirma o secretário de Comunicação da CUT Brasília, Marco Junio Nouzinho.
Fora da Lei
De acordo com a Constituição Federal de 1988, são proibidos os monopólios e oligopólios midiáticos, ou seja, uma empresa de comunicação não poderia ser detentora de canais de rádio, tv, jornais, revistas e afins. Atualmente, a rede Globo é detentora de 69 veículos de comunicação.
Além disso, a rede é acusada pela Receita Federal de sonegar mais de R$180 milhões em impostos.
O relatório da Receita comprova que a emissora  montou um esquema internacional envolvendo diversas empresas para mascarar a compra dos direitos da Copa do Mundo de 2002. O objetivo principal seria burlar o pagamento de impostos que deveriam ser recolhidos à União pela compra dos direitos.
O Congresso apoia a Globo
Na última terça-feira (14), o plenário principal da Câmara dos Deputados homenageou os 50 anos da emissora. O atual presidente da Casa, Eduardo Cunha, elogiou amplamente o grupo por seu “padrão de qualidade”. A emissora também foi elogiada pelo deputado Sergio Zveiter que atribuiu ao jornalismo da Globo, sem pudor, os títulos de “ético”, “independente” e “imparcial”.
Apesar de toda a falação sobre a suposta liberdade de expressão em favor do oligopólio midiático da Globo e afins, três manifestantes foram expulsos da sessão solene por tentar protestar silenciosamente (como é permitido nesse tipo de ocasião) e abrir um cartaz com os dizeres:  “Pela democratização da comunicação”.
Os militantes não só foram retirados da sessão solene, como foram encaminhados pela Polícia Legislativa ao lado de fora da Casa que deveria ser do povo.
Fonte: CUT Brasília

Renan ao 247: “No Senado, terceirização não passa”

na CUT-DF
Enquanto na Câmara os líderes entendiam o tamanho da enrascada em que se meteram ao aprovar o texto básico sobre terceirização ampla e geral de mão-de-obra, adiando a votação dos destaques para a semana que vem, no Senado o presidente da Casa, Renan Calheiros, demonstrava ter um radar social bem mais sensível.  Em conversa com o 247, avisou:
– Terceirização é uma prática importante para as empresas na gestão de alguns serviços mas não pode substituir completamente as relações trabalhistas regulares.  Qualquer projeto que ameace os direitos sociais ou represente retrocesso nas relações de trabalho enfrentará grandes dificuldades no Senado. Aqui não passará.
Na Câmara, o projeto que enfrenta resistência de centrais, sindicatos e movimentos sociais, e vem sendo malhado impiedosamente nas redes sociais, teve o apoio do presidente da Casa, Eduardo Cunha, e da maioria dos deputados peemedebistas. Ao se posicionar criticamente, antes mesmo de o projeto chegar ao Senado, Renan se desvencilha desta agenda que desgastará o Congresso quando ficar mais claro que foi dele a iniciativa e não do governo. Diz ele ainda:
– Como poderia o PMDB votar uma medida que afeta os  direitos sociais tendo sido a força propulsora da Constituinte de 1988, que produziu a Constituição cidadã e seu admirável artigo quinto?
Sua desvinculação antecipada da proposta confirma o que este blog já disse: os partidos que embarcaram no projeto (foram quase 400 votos favoráveis na votação inicial) buscando impor mais uma “agenda legislativa” ao governo  cometeram um erro. Conseguiram devolver ao PT e aos partidos de esquerda a posição de partidos mais comprometidos com a agenda social.  Dilma é que poderia ter se diferenciado também, pelo menos dizendo-se contrária ou preocupada com matéria de tal gravidade social, assim como vem fazendo em relação à redução da idade penal.
Outras de Renan
O PMDB sempre foi de centro-esquerda, diz o presidente do Senado, justificando sua oposição à terceirização:
– O que estou dizendo sobre a terceirização segue a mesma lógica do que defendo em relação ao ajuste fiscal.  Ele é necessário, vamos todos nos empenhar mas vamos qualifica-lo.  Vale dizer, não deixaremos que, num momento de recessão, o trabalhador e o desempregado sejam os mais penalizados.  Vamos suavizar os sacrifícios e o governo que trate de compensar os ganhos fiscais cortando em outras áreas, cortando no custeio. Até agora não vimos o decreto de programação orçamentária do governo para este ano.
Ele diz ter tido dois encontros com o jurista Luiz Edson Fachin, indicado para ministro do STF, do qual tem as melhores referências, mas diz que o seu voto será apenas mais um entre 81 senadores.
Já da troca do ministro do Turismo Vinicius Lages, por ele indicado, pelo também peemedebista Henrique Eduardo Alves, fala bem pouco.
_ Ouvi da presidente, quando da remontagem do ministério, que ele era o melhor dos ministros do governo passado. Já estando indicado para ser secretário em Alagoas, ficou no posto.  Se era o melhor, outras foram as razões para a troca. Mas não há hipótese de ele vir a ocupar uma posição compensatória no Governo. Eu, que apresentei à presidente uma proposta de redução do ministério, não devo fazer qualquer indicação. E o PMDB tem que deixar para trás esta questão de cargos no governo.
Mas o assunto que ele evita mesmo é da proposta de impeachment que a oposição começou de fato a abraçar após a prisão do ex-tesoureiro do PT, João Vacari.  E isso significa apenas que seu radar ainda está perscrutando o céu.

Fonte: Brasil 247

Nova sócia liga Serra a escândalo do Implicante

no Diário do Centro do Mundo

Serra abraçado a Cristina

Serra abraçado a Cristina
Em fevereiro passado, a Appendix, empresa responsável pelo site Implicante, teve uma mudança na sociedade.
Ingressou como sócia majoritária, ao lado de Fernando Gouveia, Cristina Ikonomidis.
Cristina foi uma das peças-chave de Serra no governo de São Paulo.
Como secretária adjunta de Comunicação Institucional, ela coordenava, pessoalmente, as visitas que o então governador Serra fazia regularmente a escolas públicas de São Paulo.
Ela foi citada num telegrama diplomático vazado pelo Wikileaks, em que o tema era Serra, então um forte candidato à presidência. O telegrama foi passado pelo consulado geral dos Estados Unidos a Washington.
Cristina narrou a seu interlocutor do consulado as visitas de Serra às escolas e, para comprovar quanto ele era amável com as crianças, mostrou diversas fotos.
Como funcionária do círculo íntimo de Serra – o criador da expressão “blog sujo” – era Cristina que fazia o corpo a corpo com a imprensa em matérias desfavoráveis ao governador.
Numa carta enviada à Folha, ela se queixou das “baixarias” dos adversários de Serra.
Aparentemente, o que o Implicante faz – ou fazia – não se enquadra no conceito de “baixaria” para Cristina.
O documento que rearranja a sociedade

terça-feira, 21 de abril de 2015

Mais Médicos, Mais Saúde

na Caros Amigos
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Mais Médicos, Mais Saúde


Por Frei Betto
O programa Mais Médicos conta, hoje, com 18.247 profissionais atuando em mais de 4 mil municípios do país. Neste ano, o número de brasileiros(as) a serem atendidos chegará a 63 milhões.

"Pesquisa da UFMG-Ipespe constatou que 95% dos beneficiários entrevistados estão satisfeitos com a atuação dos médicos, dos quais 84% estão no Norte e Nordeste. Naquelas regiões, 86% dos municípios têm ao menos 20% de sua população em situação de extrema pobreza"

O atendimento dos médicos inscritos no programa chega a ser personalizado, segundo a metodologia do sistema Médico da Família, que permite ao profissional cuidar, não tanto da doença, e sim da prevenção. A saúde é um direito e a sua progressiva mercantilização põe em risco a vida de inúmeras pessoas que não podem pagar pelo tratamento.
Satisfação
Pesquisa da UFMG-Ipespe constatou que 95% dos beneficiários entrevistados estão satisfeitos com a atuação dos médicos, dos quais 84% estão no Norte e Nordeste. Naquelas regiões, 86% dos municípios têm ao menos 20% de sua população em situação de extrema pobreza.
Vale observar que, nas vagas disponibilizadas pelo programa, a prioridade cabe a médicos brasileiros. Como os que se inscreveram no Mais Médicos são insuficientes para atender a população, o governo destinou as demais vagas a brasileiros graduados no exterior e, em seguida, a médicos estrangeiros. Há profissionais de 50 nacionalidades atuando no Brasil.
Os cubanos são cerca de 14 mil, presentes em 2.700 municípios. Em geral, os mais pobres e mais distantes dos grandes centros urbanos.
Solidariedade
Os médicos cubanos trazem a experiência de solidariedade e cooperação internacionais, já que Cuba presta serviços médicos, hoje, em 67 países. Até o governo dos EUA elogiou a atuação dos profissionais da ilha socialista no combate à epidemia de ebola na África.
Não são apenas médicos que o Brasil importa de Cuba. Além de medicamento para a hepatite B, desde o governo Collor nosso país compra a vacina de combate à meningite, única no mundo.

"O projeto ora apresentado no Senado contra o Mais Médicos é um acinte a tantos brasileiros que, pela primeira vez, recebem atendimento domiciliar de saúde"

O projeto ora apresentado no Senado contra o Mais Médicos é um acinte a tantos brasileiros que, pela primeira vez, recebem atendimento domiciliar de saúde. O direito à saúde está acima de ideologias. Partidarizar um programa que traz benefícios a quase 1/3 da população brasileira é um crime de lesa-pátria.
Tucanos
O programa, que este ano chegará a mais de 72% dos municípios do País, atende prefeituras de todos os partidos, inclusive 66% (452 cidades) das que são administradas pelo PSDB.
Cuba conta com 6,9 médicos por 1.000 habitantes, um dos maiores índices do mundo. O Brasil, com 2/1.000; e os EUA, 3,2/1.000. Com a reaproximação EUA-Cuba, milhões de estadunidenses estão de olho no chamado “turismo médico”, ou seja, a possibilidade de se tratarem em Cuba, já que nos EUA o acesso ao sistema médico-hospitalar é caro e difícil para quem não dispõe de recursos.
O convênio do Brasil com Cuba é monitorado pela OPAS (Organização Panamericana de Saúde), braço da OMS (Organização Mundial da Saúde) para as Américas. A OPAS tem 110 anos de serviços prestados. E longa tradição de seriedade e qualidade.


 Frei Betto é colaborador de Caros Amigos, escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros

Entrevista - Guilherme Boulos "O pacto em que todos ganham não é mais possível"

na Carta Capital
Para o líder do MTST, Dilma erra ao tentar agradar a direita e o PT, cada vez mais, perde apoio popular e credibilidade
por Renan Truffi 
Guilherme Boulos
Líder do MTST diz que movimento defenderia Dilma de impeachment, desde que hajam reformas populares
Grupo que vem ganhando relevância nacional, desde 2013, por conta das manifestações em favor de moradia popular, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ajudou a consolidar Guilherme Boulos como um dos principais nomes da esquerda brasileira. Como parte da matéria de capa da edição de CartaCapital desta semana, a reportagem entrevistou o líder sem teto para uma análise sobre o atual momento da política brasileira, em meio a rumores de impeachment contra o governo Dilma Rousseff.
Para Guilherme Boulos, a presidenta fez o mesmo caminho do ex-presidente Getúlio Vargas no início da década de 1950, ao tentar conquistar a direita depois de uma campanha eleitoral mobilizada pelos movimentos populares. Mas, ao contrário do que aconteceu durante boa parte da gestão Lula, não há mais condições econômicas para agradar tanto conservadores como progressistas. “A política do pacto de que todos ganham não era mais possível. E a escolha foi, lamentavelmente, cortar do lado dos trabalhadores”.
Leia a entrevista abaixo:
CartaCapital: Como o senhor avalia o início de governo Dilma?Guilherme Boulos: No segundo turno houve um discurso forte da presidenta mais à esquerda. Esse discurso, diante do medo de um possível retrocesso com Aécio Neves, conseguiu mobilizar setores populares importantes. Quem foi para as ruas no segundo turno não foram militantes pagos, mas os movimentos sociais. Poucas horas após o resultado, é impressionante, os gestos da presidenta foram no sentido contrário. Tivemos aumento de juros e declarações desastrosas, como a da abertura de capital da Caixa Econômica Federal. A opção feita pela presidenta e pelo PT foi de responder à crise pela direita. Esse é o grande problema. Quando o crescimento econômico degringolou por conta da crise dos últimos quatro anos, o governo tinha de fazer opções. O orçamento diminuiu, de algum lado tinha de cortar. A política do pacto de que todos ganham não era mais possível. E a escolha foi, lamentavelmente, cortar do lado dos trabalhadores, em vez de fazer uma política de reformas populares, mais à esquerda.
CC: Há clima para um impeachment?GB: A Dilma Roussef incorreu em um erro parecido com aquele de Getúlio Vargas em 1951. Vargas foi eleito em uma das campanhas de maior mobilização do País. Milhares de brasileiros foram às ruas em 1950. Mal assumiu e, como tinha o Congresso contrário e a UDN dominando a mídia, fez as concessões. Montou um ministério conservador e ficou refém desses setores. Acreditar que essas sinalizações à elite e à direita eram suficientes para domá-las foi o equívoco do Vargas. E quando tentou dar uma guinada mais à esquerda, já era tarde. A base popular que o elegeu não confiava mais nele. O caminho de contrariar, de frustrar as expectativas da base popular que a elegeu é o caminho da ruína. Evidentemente, o impeachment a essa altura, principalmente de onde parte a ideia, é golpismo. É inaceitável. Agora a presidenta tem de entender que o governo dela precisa ser mais defensável. Hoje é difícil sair na rua para defender a sua administração. Evidentemente, da nossa parte, vai haver um rechaço direto a qualquer alternativa golpista da direita e da elite, pois sabemos até onde isso vai. Na política não tem essa de “pior que está, não fica”. Fica. Sempre pode ficar pior e temos de analisar essas situações e impedir que a direita ganhe ainda mais com esse processo. Mas isso não significa da nossa parte defender o governo Dilma. Primeiro, o governo tem de se fazer defensável, depois pode pedir para ser defendido.
CC: Diante de uma ameaça concreta de impeachment, o MTST entra para defender o governo Dilma nas ruas?GB: Entra, mas entra de uma forma muito categórica. Não entra dando cheque em branco para a Dilma, não. Entra criticando e exigindo, inclusive, que esse governo revogue as MPs, que esse governo garanta investimento sociais e que esse governo faça as reformas estruturais e necessárias para uma saída popular para a crise no País. E não a saída da direita. O MTST não tem disposição de ir às ruas e defender o governo Dilma com essa política. O MTST tem disposição de ir às ruas contra o impeachmente contra o golpismo mas, ao mesmo tempo, contra uma política de ajuste antipopular.
CC: Qual seria a saída popular?GB: Uma saída popular é defender a Constituição. Ser de esquerda no Brasil, é meio lamentável dizer isso, implica em defender pontos da Constituição, que prevê a auditoria da dívida pública, a taxação de grandes fortunas, a função social da propriedade, a democracia nas comunicações. A Constituição não prevê financiamento empresarial de campanha. Esses temas que, lamentavelmente, são tabus e precisam ser enfrentados. O ajuste a ser feito é para o outro lado. Não é cortar pensão, dificultar o seguro-desemprego. Isso é uma vergonha. Taxação de grandes fortunas se faz com correlação de forças, não se faz apenas com vontade política. Agora correlação de forças se constrói e se cria fortalecendo os movimentos sociais. A saída popular para a crise é fazer os ricos pagarem pela crise.
CC: Há condições para o governo Dilma fazer um caminho de volta?GB: Olha, o tempo está se esgotando. A história foi bastante generosa com o Partido dos Trabalhadores. A história deu oportunidades para o PT, e deu credibilidade popular mais de uma vez para ele optar por um caminho de reformas populares, de combate aos privilégios da elite. Deu essa oportunidade em 2003 e em 2006 depois de uma eleição extremamente polarizada. Em 2010 não houve tanta polarização, mas aconteceu agora novamente em 2014. E essas oportunidades foram sistematicamente dispensadas. Uma hora a história se cansa também e caímos no mesmo dilema de Vargas. O PT cada vez mais perde apoio popular, credibilidade e a sua condição política para atuar em qualquer processo de mudança política no País.
CC: Qual sua análise da esquerda brasileira nesse momento? Quais alternativas a esquerda tem?GB: Nós acreditamos que o principal caminho que a esquerda precisa seguir é acumular força social. Nós precisamos retomar trabalho de base, nós precisamos ter capacidade de mobilização, nós precisamos reconstruir capacidade de diálogo com a classe trabalhadora, com os mais pobres. Esse é o caminho. Se fala muito no Podemos [partido de esquerda que vem ganhando força na Espanha]. Um Podemos, assim como um Syriza [partido de esquerda que venceu as eleições na Grécia], não é para quem quer. É para quem pode. Você precisa ter milhares, centenas de milhares de pessoas nas ruas para construir um instrumento político que capilarize com força sentimentos e projetos de mudança. Isso não se faz de um dia para o outro. Esse é hoje um dos principais problemas da esquerda brasileira. Nós temos pouca capacidade de diálogo e de mobilização das classes populares. Isso para nós é o grande desafio. É o que movimentos como o MTST procuram fazer com a sua atuação.
CC: O senhor enxerga algum tipo de movimento parecido com o Podemos, da Espanha, ou o Syriza, da Grécia, acontecendo no Brasil nos próximos anos?
GB:
 No atual sistema político brasileiro, a esquerda será sempre minoritária. Para se criar condições de uma alternativa de esquerda, com possibilidades reais de ganho, é preciso mudar esse sistema político. Não só o tema do financiamento de campanha, mas fundamentalmente garantir mais ferramentas de participação popular. É preciso combater de baixo para cima essa estrutura patrimonialista, privatista e anti-popular do Estado brasileiro. Sem isso, muito improvavelmente nós vamos ter uma alternativa de esquerda com chance de vitória. O PT, longe de ser um contraponto disso, é uma expressão disso. Para ganhar nesse sistema político teve que fazer um tal grau de concessão de projeto de plataforma que o descaracterizou como governo de esquerda. Nos últimos 12 anos no Brasil, nós não tivemos um governo de esquerda. Nós tivemos um governo que produziu alguns avanços sociais sem nenhum mexer em nenhum privilégio [da elite]. Ao contrário, produziu recordes para a elite financeira e industrial do País, sem tocar em nenhuma das reformas estruturais necessárias para uma mudança verdadeira no Brasil.
CC: O senhor é um dos líderes da esquerda que emergiu há pouco tempo no Brasil. O senhor se enxerga entrando em algum momento na política brasileira para representar essa esquerda, ou para liderar uma mudança no sistema político?GB: Veja, um dos pontos de uma reforma política, de uma mudança política radical, é partir de uma lógica personalista, do atual sistema, para uma lógica de projeto político. Acho que a disputa tem que ser feita nesse momento para uma mudança radical do sistema político, entre outras mudanças que nós temos que fazer junto a isso. E é preciso viabilizar projetos políticos para que se faça esse enfrentamento porque uma reforma política não resolve tudo. Reforma política não é coringa. Um sistema político mais popular nos dá condições para disputar melhor um projeto de reformas populares para o País.

Vila Soma: o novo Pinheirinho?

na Carta Capital
Uma ocupação com mais de 9 mil pessoas acirra os ânimos em Sumaré, interior de São Paulo, e vive sob ameaça de reintegração de posse
Vila Soma
A ocupação Vila Soma fica na cidade de Sumaré, município a 115 quilômetros de São Paulo
Assim que soube onde morava a faxineira Maria de Fátima da Conceição Santos, de 48 anos, a “patroa” quis conversar. Perguntou se era verdadeiro o endereço da residência da funcionária. Diante da confirmação, avisou: o perfil de Maria de Fátima não se enquadrava com o de seu círculo social e a demitiu. “Eu já trabalhava para ela fazia uns cinco meses e ela falou: ‘Eu não posso deixar que a prefeita e o marido dela, meus amigos, te encontrem aqui’. Aí fui dispensada”. A experiência vivida pela doméstica escancara o incômodo gerado pela ocupação Vila Soma na cidade de Sumaré, município a 115 quilômetros de São Paulo com pouco mais de 230 mil habitantes.
A possível explicação para o repúdio é o fato de a ocupação estar encravada numa área de 500 mil metros quadrados, região próxima ao centro da cidade, entre bairros ditos nobres do município. O local foi ocupado em julho de 2012, quando 50 famílias entraram no terreno. Em dois meses, o número subiu para 300. Hoje, a estimativa do Ministério Público e da própria ocupação é de 2,5 mil famílias ou, aproximadamente, 9 mil moradores. O local estava ocioso há ao menos 20 anos, desde a falência da empresa Soma Equipamentos Industriais. Parte do terreno pertence à Melhoramentos Agrícolas Vifer.
Quase três anos depois do início da ocupação, a Vila Soma tem centenas de casas de alvenaria, em meio aos destroços da antiga empresa, mas ainda é alvo de ações de desocupação e reintegração de posse. Os pedidos de saída dos moradores não vêm apenas dos antigos proprietários do terreno. Uma das ações foi protocolada justamente pelo Ministério Público Estadual. O motivo alegado pelo órgão: “Grave lesão a direito urbanístico, com o fracionamento irregular do solo”.
Além do Ministério Público, a prefeitura parece não ter vontade de declarar a área de interesse social, no intuito de conseguir a desapropriação do terreno ou qualquer tipo de regularização fundiária. Apesar da dívida de, aproximadamente, 10 milhões de reais deixada pela antiga empresa apenas em IPTU. Segundo os advogados dos moradores, o débito poderia ser usado para abater parte do valor do terreno. Mas um documento, produzido pela Polícia Militar e inserido no processo, mostra que o poder público está longe de considerar essa opção.
Segundo a ata de uma das reuniões realizadas sobre o assunto no ano passado, a prefeita de Sumaré, a tucana Cristina Carrara, declarou em encontro fechado não desejar “uma área de invasão tão próxima ao centro da cidade”. Coincidentemente, a prefeita mora a apenas 3 quilômetros da Vila Soma. “O poder público municipal sempre criou obstáculos. A prefeitura claramente não tem interesse, não tem diálogo, foge de qualquer responsabilidade. E que atitude o MP teve durante os 25 anos que a área também teve uso irregular? Qual interesse o MP está defendendo? Está realmente preocupado com as famílias?”, pergunta Alexandre Mandl, advogado dos moradores da Vila Soma.
"Família Soma"
A rejeição parece espalhar-se por outras instâncias e atinge em cheio os moradores da ocupação. Depois de perder o emprego na casa de uma “amiga da prefeita”, Maria de Fátima ficou sem carro, um Fiesta azul ano 2000, usado para recolher lixo reciclável. “Um policial militar mandou eu encostar. ‘A senhora é da (Vila) Soma?’. Eu falei: ‘Sou, o senhor viu a carteirinha aí? ‘Não, é porque a senhora é bem manjada, te conheço das passeatas’.”
Em seguida, conta, o policial mandou-a retirar o material do carro. Ela se recusou, mas permitiu que ele retirasse o papelão ou procurasse algo de ilícito. Foi o suficiente, segundo ela, para o policial apreender o carro. “Nem tudo você pode abaixar a cabeça, né, filho? Não sou bandida”, explicou.
Hoje, a ex-doméstica acorda por volta das 5 da manhã todos os dias e usa uma carroça para recolher e vender papelão, garrafas PET ou, com sorte, cobre. A renda antes beirava os mil reais por causa do carro, caiu para entre 200 e 300 reais, afirma. Por isso, ela depende do auxílio de vizinhos e de 236 reais do Bolsa Família para alimentar seis crianças que moram com ela, incluídos netos. “Meu filho foi assassinado e minha filha está presa.”
A história da catadora assemelha-se à de vários outros moradores da ocupação, já que muitas são mulheres solteiras com filhos para criar. Maria do Carmo, de 59 anos, é outra que mulher sozinha com filhos na ocupação. Viúva há oito anos, ela foi parar na Vila Soma porque não conseguia pagar aluguel com o salário de 700 reais que recebia como faxineira. E, alguns meses antes de seu marido morrer, caiu de uma altura de dois metros de altura enquanto limpava uma janela na casa da filha de sua “patroa”. Sem registro, teve dificuldade para conseguir benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e precisou da ajuda do filho, servente de pedreiro, para pagar o aluguel. Por isso, chegou na ocupação logo no primeiro dia.
“Vim morar num barraquinho [quando começo a ocupação]. Se precisar sair, eu vou morar embaixo da ponte com a família Soma. Como eu vou conseguir pagar aluguel com um salário mínimo? Quando, onde? Se a Caixa [Econômica Federal] quiser comprar aqui e vender para nós, nem que eu tenha que pegar latinha na rua, eu vou pagar. Eu já catei reciclagem. Fiz tudo na minha vida, menos roubar. Acho bonita uma pessoa honesta, limpa e pobre”, conta a paulista de Itapetininga, outra cidade do interior do Estado.
Para Willian de Souza, presidente da Associação de Moradores do Matão e um dos líderes da ocupação, a cidade vive uma "guerra social". "As pessoas do centro não querem essa ocupação. A prefeita traz a opinião da elite. A cidade não quer uma ocupação no centro. Fora a briga e a especulação imobiliária que existe aqui nessa área porque o corredor metropolitano vai passar logo no início dessa área. Vem um terminal rodoviário também. Então existe uma especulação imobiliária para outras empresas comprarem e construírem um condomínio de luxo. Então isso poderia, mas ter pobre perto do centro não faz tão bem para a prefeitura", conclui.
Enquanto o imbróglio judicial segue com pedidos e liminares, os moradores seguem fazendo passeatas e manifestações. “Isso aqui é como se fosse uma parte do céu. Eu não teria como manter as crianças (se tivesse de pagar aluguel). O que ia acontecer? Teria de procurar embaixo de uma ponte. Gostaria que o pessoal de fora da ocupação, depois dessa reportagem, olhasse pra nós como seres humanos. É como se só fosse bicho aqui", apela Maria de Fátima.
Outro lado
A Prefeitura de Sumaré informou, em nota, que “não procede” o pedido feito pela prefeita, e registrado em ata pela Polícia Militar, para que a ocupação não permanecesse numa região tão próxima ao centro da cidade. "Reforçamos que as declarações da prefeita na ocasião não foram estas, e que deve ter havido um severo erro de interpretação do que ela disse na reunião em questão – reproduzido agora, inadvertidamente, no Agravo de Instrumento da Defensoria Pública", diz o comunicado.
Além disso, a resposta enviada pela assessoria de imprensa sobre sobre a ocupação começa enfatizando "o problema da ocupação irregular do solo" e não a questão da moradia, que aparece no segundo parágrafo do comunicado. “O problema da ocupação irregular do solo em Sumaré é histórico e arrasta-se há décadas, fruto exatamente das invasões de áreas públicas e privadas ocorridas ao longo dos anos, permitindo que milhares de famílias morem atualmente em cerca de 80 invasões precárias, sem qualquer infraestrutura urbana ou de saneamento básico, insalubres e, muitas vezes, longe da mancha urbana e dos equipamentos públicos essenciais, como Saúde, Educação e Transporte Público”, afirma o comunicado.
O poder público municipal nega ainda que tenha deixado de negociar com as lideranças da ocupação. "A Prefeitura de Sumaré jamais se furtou ao diálogo e apoia efetivamente a busca (já em estágio bastante avançado) de uma solução tecnicamente viável para construção de moradias para estas famílias, através de sua atuação no GT [Grupo de Trabalho] – solução esta, como já vem sendo trabalhado há meses, que vai necessariamente passar pela viabilização, pelas próprias famílias, com apoio técnico das três esferas de governo, de um ou mais conjuntos habitacionais", diz o texto.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Estudantes de Nova York se posicionam contra educação corporativa

na Carta Maior

Alunos alegam que os testes a que as crianças são submetidas servem apenas para legitimar o fechamento de mais escolas de bairros e demitir professores.

Nadia Prupis, Common Dreams
Thomas Hawk / Flickr
Dezenas de milhares de alunos em Nova York boicotaram o exame anual obrigatório de língua inglesa e artes essa semana como um desafio para a agenda educacional controversa do governador Andrew Cuomo.


Organizadores, incluindo o grupo de advocacia educacional Unidos para Conter o Núcleo, disseram que ao menos 155.000 alunos optaram por não fazer os testes na quinta-feira, com apenas metade do distrito do estado apurada. Esse número subiu de 112.763 na quarta-feira – e de 49.000 no ano passado. Os testes se iniciaram na terça-feira.


De acordo com pais, alunos e ativistas, a revolta é uma resposta à tomada política dos padrões educacionais– vista no nível nacional também – e que foca em exames padronizados e um currículo de núcleo comum, desenvolvidos por uma companhia com fins lucrativos secreta, que compromete o ensino e a preparação para o teste.


No último mês de março, Cuomo aprovou um orçamento que incluía revisões divididas à agenda educacional do estado, incluindo avaliações de professores baseadas somente em testes, as quais críticos dizem tomar muito tempo, serem muito vagas para serem certeiras e falharem em mensurar o verdadeiro aprendizado.


O jornalista investigativo Juan Gonzalez explicou as preocupações sobre o foco crescente nos testes em sua coluna do New York Daily News:
 
"Os políticos criaram um teste que diz que todas as escolas estão falhando, não apenas aquelas nas cidades grandes, depois declararam uma crise para que possam fechar mais escolas de bairros, lançar mais escolas independentes e mirar mais professores para demissão."


Enquanto isso, a companhia privada que bolou esse novo teste, Pearson, insiste em total confidencialidade sobre seu conteúdo.


Como o Democracy Now! relatou em janeiro, enquanto Cuomo realizou reuniões com pais em Nova York que expressaram uma série de frustrações sobre o currículo proposto, a professora de educação especial Jia Lee testemunhou ante o Congresso americano sobre o crescente número de pais optando por excluir seus filhos dos exames anuais.


“No estado de Nova York, ao menos, esses testes mudaram de ano em ano,” disse Lee durante seus testemunho. "Quando pais e educadores expressaram suas preocupações, foram acusados de mimar os filhos. Quero desafiar essa afirmação."


“O grande crime é que o foco no teste tomou recursos valiosos e tempo da programação, estudos sociais, artes e educação física, serviços de educação especial e programas de aprendizado da língua inglesa,” disse Lee.


Toni Smith-Thompson, uma mãe Nova Iorquina cuja filha optou por não fazer o teste essa semana, falou com o Democracy Now! na sexta-feira, explicando porque o protesto desse ano alcançou esse tamanho sem precedentes.


“Com a soma dessas apostas altas anexadas às avaliações dos professores, realmente foi a última gota,”  disse Smith-Thompson. “Crianças começaram a falar sobre ‘se eu não passar, minha professora será demitida,’ e crianças não deveriam estar nessa posição.”


Uma vez que Smith-Thompson e outros pais em seu distrito “tiveram a informação sobre o que havia nos teste, o tempo dos teste, como oito horas – mais meses de preparação para os teste – foi fácil,” ela continuou.


Cindy Rubino, uma mãe em Lakeland cujos filhos também boicotaram os testes, disse à USA Today que estava animada com o resultado. “Acredito que seja um dia histórico no estado de Nova York, enquanto tentamos reconquistar o controle local da educação de nossas crianças,” disse Rubino. “Essas recusas protestam contra um sistema que frequentemente falha com nossas crianças e educadores.”


Uma nova rodada de teste, focados em matemática, está planejada para a próxima terça-feira.