sábado, 7 de março de 2015

Mulher, negra e de cabelo crespo sim

no Portal da Revista Fórum


Em homenagem às mulheres do Brasil e do mundo, blog do professor Gilbert, hoje e amanha vai fazer diversos pots, a partir de outros blogs - Fórum, Maria Frô, Socialista Morena...

Para contestar padrões de beleza, o projeto “Tecendo e Trançando Arte”,  realizado pelo coletivo Manifesto Crespo, promove oficinas que ensinam a técnica do turbante e do trançado dos cabelos; última vivência ocorreu em aldeia indígena de SP
Por Anna Beatriz Anjos
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Projeto “Tecendo e Trançando Arte” existe há quatro anos e já atingiu mais de mil pessoas, a maioria mulheres (Foto: Semayat Oliveira)
Se nas sociedades modernas as mulheres sofrem com o machismo, quando são negras, a opressão é dupla, motivada por seu gênero e sua raça. Uma das formas pela qual esse sistema de exclusão se expressa é o “padrão de beleza”, que elege brancas e magras, com cabelos lisos e traços finos, como o ideal a ser atingido.
As mulheres negras, portanto, além de marginalizadas nos espaços de trabalho e educação, nas esferas de decisão e poder e também nas representações veiculadas pela mídia, enfrentam ainda a subjugação estética. Em uma sociedade na qual machismo e racismo se cruzam e se somam, as características físicas negras, sobretudo femininas, são inferiorizadas a todo momento.
Por causa desses parâmetros – que também costumam ser racistas –, muitas meninas negras crescem com a autoestima abalada, em uma constante jornada para corrigir um suposto defeito catalogado pela sociedade. Mas como consertar um ‘defeito’ que é sua própria condição física natural?”, escreveu a militante feminista Jarid Arraes, blogueira da Fórum.
O coletivo Manifesto Crespo surge em São Paulo com o objetivo de contestar e fissurar essa lógica. “Tudo começou quando um núcleo de mulheres negras, jovens, se reuniu para discutir a questão da identidade a partir do cabelo, das nossas dificuldades em sermos aceitas com o cabelo natural, crespo”, conta a produtora e socióloga Lúcia Udemezue. 
Por meio do projeto “Tecendo e Trançando Arte”, o grupo promove oficinas que ensinam a técnica do turbante e do trançado dos cabelos com “uma abordagem histórica e cultural”. Durante a atividade, uma roda de conversa é formada, na qual as educadoras discutem com as participantes a relação com seus corpos, além de compartilhar relatos e experiências.
Pensamos em montar um projeto que fosse artístico, pedagógico e ao mesmo tempo político, para que a gente criasse um ambiente onde pudéssemos compartilhar essas mesmas vivências e ouvir de outras mulheres como são ou não aceitas na sociedade por conta de um padrão de beleza imposto”, adiciona Lúcia.
Desde que foi criado, há quatro anos, o “Tecendo e Trançando Arte” já atingiu mais de mil pessoas – segundo as organizadoras, “a maioria de mulheres, em São Paulo e região”. Em 2014, foi contemplado pelo Prêmio Lélia Gonzalez (Protagonismo de Organizações de Mulheres Negras), lançado em parceria pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). A partir daí, o coletivo expandiu seu espaço de atuação e passou a visitar comunidades para além da capital. Os critérios de escolha são a preservação da memória e tradições da população negra e indígena, além da presença de mulheres nos ambientes de liderança.
Nas vivências, as educadoras debatem também o “sofrimento de prateleira”: a não existência de cosméticos fabricados especialmente para as mulheres negras, considerando os tons de suas peles e as especificidades de seus cabelos. “Muita gente nem percebe que existe uma quantidade de produtos que não tem nada a ver com a gente. E aí, todos os produtos voltados para o cabelo crespo são para domar, conter, ‘dar um jeito’, ‘arrumar’, nunca valorizando a característica natural do cabelo, mas sim tentando transformá-lo em outra coisa. Temos um trabalho de reconstrução diária”, diz a designer Nina Vieria, integrante do coletivo.
Intercâmbio
Mulheres e crianças da aldeia Tenondé Porã aprenderam a fazer turbantes (Foto: Semayat Oliveira)
Mulheres e crianças da aldeia Tenondé Porã aprenderam a fazer turbantes (Foto: Semayat Oliveira)
No último dia 28, o Manifesto Crespo visitou aldeia indígena Tenondé Porã, localizada em Paralheiros, no extremo sul de São Paulo. A ideia era promover um intercâmbio entre as índias e a cultura afro, além de ouvir os relatos dessas personagens, que cultivam um laço tão estreito com a terra.
Nina Vieira esclarece porque, na perspectiva do coletivo, é tão importante a troca entre mulheres negras e indígenas. “Tem a questão de autoestima. Estamos falando de estética negra, da não aceitação do cabelo, do formato do corpo e do rosto, e a gente percebe, dialogando com elas, que isso também existe para a mulher indígena. Tem também a questão da resistência”, destaca. “Em dezembro, estivemos em uma comunidade quilombola, que tem uma relação acirrada com a especulação imobiliária, e isso acontece aqui também, por conta do processo de demarcação de terras.”
Mas a Tenondé Porã foi escolhida por uma particularidade: entre seus líderes, está a índia Jerá Guarani, de 34 anos. “Queríamos ouvir, a partir da ótica da mulher indígena, como é ter uma uma mulher à frente. Tradicionalmente, ouvimos falar de caciques e pajés à frente, então queremos saber como é ter mulheres despontando”, complementa Nina.
Na oficina de turbante, foram levados em conta aspectos da rotina da aldeia. As educadoras ensinaram às índias, por exemplo, como fazer uma saia utilizando apenas um pedaço de tecido. A peça incluía um pequeno bolso na região da cintura, pensado para o armazenamento de sementes durante o processo de semeadura, frequentemente realizado pelas indígenas.
Era perceptível o interesse das mulheres Guarani Mbya em aprender as amarrações. “Eu tinha curiosidade de conhecer a cultura afro. A minha mãe é descendente de negros, então ela tem o cabelo crespo. Queria fazer nela os turbantes e trançados, por isso queria aprender”, conta a professora Aline Jaxuka, de 23 anos.
Para a também professora Priscila Para Poty, de 24 anos, a visita do Manifesto Crespo foi importante por conta das semelhanças entre as problemáticas vividas por mulheres negras e indígenas. “Aqui na aldeia, não são todas as guaranis que têm cabelo liso. [Tem gente com] cabelo crespo, mais enrolado. Essas mulheres, quando olham para outras com cabelo liso, querem ter aquele cabelo também”, relata.
(Foto de capa: Nina Vieira)

Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas

no Portal do MST
Milhares de mulheres da Via Campesina se mobilizarão em todo país para denunciar os males do agronegócio.
Cartaz_Jornada_Mulheres_2015_WEB-1.jpg

por José Gilbert Arruda Martins 
Hoje e amanhã, com mais ênfase, pois o blog já trás as questões da mulher no dia a dia, o blog do professor Gilbert, numa simples e despretensiosa homenagem, vai divulgar e comentar postagens sobre a luta das mulheres no Brasil e no mundo.
Aproveite. Leia e traga seu debate, sua opinião. Mas leia antes.
As mulheres são trabalhadoras, construtoras. Parte e protagonistas de um plano maior.
Somos felizardos em tê-las conosco. Somos ganhadores e ganhadoras.
As mulheres, juntamente com os homens, construíram.  São as descobridoras da maior e mais importante revolução que a humanidade já experimentou, a Revolução Agrícola.
As mulheres são muito mais.
Nós homens e sociedade em geral precisamos enxergar.

Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas

no Portal do MST
Milhares de mulheres da Via Campesina se mobilizarão em todo país para denunciar os males do agronegócio.
Ao relembrar o dia 8 de março, a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas neste ano traz o lema Mulheres em luta: pela soberania alimentar, contra a violência e o agronegócio.

Com isso, milhares de mulheres dos movimentos sociais que compõem a Via Campesina se mobilizarão em todo país durante a primeira quinzena de março para denunciar o capital estrangeiro na agricultura brasileira e as empresas transnacionais, chamando a atenção da sociedade do modelo destrutivo do agronegócio para o meio ambiente, a ameaça à soberania alimentar do país e a vida da população brasileira, afetando de forma direta a realidade das mulheres.

Ao mesmo tempo, as camponesas apresentarão como alternativa o projeto de agricultura baseado na agroecologia, e propõe a luta em defesa da soberania alimentar.

As mulheres afirmam lutar “porque a participação efetiva no processo político de luta, de mobilização, de formação e de decisão é condição para a elevação do nível de consciência das mulheres”.

"E, para nós, a luta é uma condição para a vitória. A visibilização é importante, a participação é necessária, mas o protagonismo é a condição para mudar a realidade das mulheres. Assumir o comando da luta como sujeitos políticos cria as condições para que as mulheres construam sua própria história".

A Jornada Nacional de Luta das Mulheres campesinas também se coloca como desafio para a divulgação e a construção de formas de viver e produzir, que contribuam para a soberania alimentar do país e a preservação da biodiversidade.

E deve se colocar em aliança com as mulheres trabalhadoras da cidade, para que juntas possam mudar os rumos da história e construir uma sociedade com novos valores e um mundo sem violência e sem opressão.

"Assumimos o compromisso de lutar incansavelmente contra toda e qualquer forma de opressão e mercantilização da vida, do corpo e dos bens naturais".

Clique aqui para baixar o panfleto e a cartilha da Jornada.

Love is love,


por Mateus Falcão de A. A. Martins
Love is love,
Is beyond labels
And paradigms,
Nothing is closer to grace,
Closer to beauty,
The real beauty that can't be measured,
Love is love,
No matter the race,
The religion or the sexuality,
It's beyond any judgment,
Beyond prejudice and pride,
No matter who you are or where you live,
Love is love,
It Transcends words and languages,
And can't be named by any other word than
LOVE.

Estudante de medicina estuprada resiste: “Ninguém toca nos meus sonhos”

no Blog da Maria Frô
Estudante da Faculdade de Medicina da USP que foi estuprada por um colega de sala, seu ex-namorado
Estudante da Faculdade de Medicina da USP que foi estuprada por um colega de sala, seu ex-namorado
por José Gilbert Arruda Martins

O Blog do Professor Gilbert vai apresentar/repleticar, de blogs de mulheres, fatos e a realidade da mulher brasileira.

É nossa singela e insignificante homenagem a ELAS que fazem um mundo mais feliz.

Vivemos uma sociedade, machista, de homens.

Tradição cultuada por milhares de famílias e por instituições importantes como a igreja, a família e o Estado.

Os pilares que "sustentam" a sociedade faliu.

O mundo mudou. Muita gente ainda não percebeu. As mulheres sim.

Nenhuma mulher, se não deseja, tem que cuidar de marido ou casa. Homens e mulheres, juntos irão cuidar da casa e da família.

O entendimento desse simples e fundamental fato é de fundamental importância para a construção de uma sociedade que respeite mulheres e homens.

Os pastores e padres, líderes religiosos e professores em geral, nesse dia 8 de março, debata em sala de aula essa questão.


Estudante de medicina estuprada resiste: “Ninguém toca nos meus sonhos”

Por Maria Frô
Toda mulher tem uma série de casos de agressão para relatar, claro que não estou falando apenas em estupros. As mulheres são assediadas em trens, metrôs, ônibus, nas ruas, na praia, em qualquer espaço público por estranhos, especialmente quando adolescentes e jovens.
Aos cinco anos eu fui assediada numa rodoviária. Minha mãe, sozinha, com três filhos pequenos, dois praticamente de colo, já que a diferença de idade de meu segundo irmão para minha terceira irmã é de 1 ano, 1 mês e 20 dias. Não podendo carregar os três, deixou-me sentada à espera do ônibus e pediu para um senhor me olhar. Foi até uma farmácia próxima para comprar remédio para o ouvido do meu irmão que gritava de dor. Quando chegou a polícia já estava no local, uma senhora presenciou a molestação e chamou a polícia.
Na adolescência a festa que eu mais gostava era o carnaval. Adorava o carnaval até chegar roxa em casa dos beliscões que levava. Certa vez num carnaval, um predador mesmo estando acompanhada de meu namorado passou a mão no meu traseiro. Outra, assim que me mudei para São Paulo, tive de entrar numa loja no centro, comprar um jeans para voltar pra casa, porque não aguentei o assédio no metrô e nas ruas por estar de shorts.
Esta é a realidade que meninas, jovens e mulheres até chegarem a velhice sofrem diariamente no Brasil. O estupro é piada pra ‘comediantes’como Rafinha Bastos. A barbárie contra mulheres violentadas e agredidas fisicamente e, às vezes mortas, é cometida na maioria das vezes por homens próximos: ex-companheiros, pais tios, amigos da família.
Mas usar do desequilíbrio mental pra justificar um estupro me parece uma justificativa oportunista.
Tive um ex-namorado que tentou se matar durante a faculdade. Chegou a subir no prédio para se atirar. Liguei para os parentes para buscá-lo, chamei ambulância, bombeiros, pedi socorro aos amigos. Era visível o seu desequilíbrio e eu tinha muito medo de ele se matar e aos 19 anos eu não conseguia lidar com aquilo sozinha.
Mas ele nunca me agrediu. Nunca. Seu desequilíbrio na época era tão grande que certa vez, numa festa, ele chegou a arrancar a porta do meu apartamento, não a arrombou, tirou as dobradiças e deixou o apartamento sem portas. A abertura e fechamento da porta com o entra e sai das pessoas que estavam na festa (a festa ocorria na parte coletiva do prédio, mas as pessoas iam ao apartamento pegar coisas para a festa) o incomodaram a ponto de ele tirar a porta.
Entendo perfeitamente porque esta estudante de medicina acabou sendo vítima de estupro daquele que ela tentou ajudar. Ela é tão jovem quanto eu era quando aquele meu ex-namorado tentou se matar. Não conseguimos lidar com isso. Por isso e ainda mais por ter se relacionado com ele, ela cedeu ir ao lago. Nada justifica a violência a que foi submetida por um macho ferido. Nada. Os danos deste estupro não cessam com o fim do ato, a violência prossegue na denúncia e no tratamento social que a vítima recebe como ela relata no seu dolorido depoimento:
A violência vir de alguém próximo é ainda pior. Estou sempre esperando que me magoem de novo. Sexo ainda é um problema. Lembro de tudo, aí sinto dor.”
A gravidade dos casos de estupro da medicina de Ribeirão é ainda maior, quando pensamos na possibilidade de os estupradores seguirem incólumes e se tornarem médicos. Direção, professores e alunos da USP-Ribeirão têm de encarar de frente este problema e as faculdades de medicina no geral precisam urgentemente rever seus currículos com o objetivo central de formarem médicos humanizados. Seus representantes nos CRM  e a profusão de absurdos que vimos durante a campanha sórdida dos médicos corporativistas contra o programa Mais Médicos, durante as eleições e na boataria reacionária durante o nascimento no SUS da filha prematura de um ex-ministro nos dão o retrato de como foram e estão sendo formados os médicos no Brasil. Assusta e indigna. E os poucos de origem pobre que chegam aos bancos das faculdades de medicina são tratados como lixo pela própria classe em formação.
“Quando aconteceu, cheguei a pensar em trancar a faculdade e ir embora. Mas ele não vai tomar mais nada de mim. Ninguém toca nos meus sonhos. Não vou sair da faculdade. Não peço que ninguém acredite em mim, mas que sejam neutros. A Justiça vai julgar o caso. (…)
Eu já tinha me decepcionado com alguns colegas. Para entrar numa faculdade de medicina a pessoa pode até ser inteligente, mas não quer dizer que tenha bom coração e caráter. Muitas vezes, os mais preparados para o vestibular são os que tiveram oportunidades e dinheiro. E a prepotência vem junto.
Eles não têm noção do que acontece longe dos seus bercinhos de ouro. Eu e o B. fazemos parte da turma pobre da faculdade. E somos poucos. Uma turma que quer fazer medicina da família, cuidar de gente. A maioria quer cuidar de ganhar dinheiro.
Tenho medo de quando eles estiveram no consultório. Como vão atender gays, lésbicas, mulheres negras e vítimas de violência sexual? Vão falar: ‘Ah, não foi assim?’ Vão dar risada na cara da paciente? Vão desconsiderar o que relatam?
Apesar de tudo, não me arrependo de ter denunciado. Se eu pudesse falar com todas as vítimas de violência sexual, eu diria: ‘Vocês têm que ir até o fim’. Muitas desistem, temendo enfrentar delegados, escrivães, peritos, exames, amigos e família. Sei o quanto as vítimas se sentem desamparadas.
Tenho medo que T. volte à universidade, das ameaças, de acontecer de novo. Como conviver com uma pessoa dessa? Espero que ele nunca se forme. Como um médico é um estuprador? Não pode. Temo por todas as mulheres que estão perto dele.”
Estudando com o Inimigo
por Eliane Trindade, Folha
Estudante da USP denuncia ex-namorado por estupro no campus
22/02/2015
Aluna do segundo ano da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, G., 19 anos, denunciou um colega de turma, T., 21, seu ex-namorado, por estupro.
Já houve uma audiência do processo na 2ª Vara Criminal da cidade e a universidade abriu sindicância para investigar o fato ocorrido em 8 de agosto do ano passado dentro do campus.
A seguir, a estudante, que não pode dar detalhes do caso que corre em segredo de Justiça, fala do estigma de ter denunciado violência sexual na universidade.


Depoimento…
“Todos os meus colegas sabem que denunciei por estupro meu ex-namorado, que também é aluno do segundo ano de medicina na USP de Ribeirão. O serviço de psicologia da universidade foi falar com a classe, mas relataram como se fosse assédio.
Foi mais grave. Eu me ausentei por uma semana e T. se internou na unidade de psiquiatria do Hospital da Clínicas, onde foi preso em flagrante no mesmo dia em que me violentou na trilha que leva ao lago, dentro do campus.
Nós namoramos por quatro meses. Logo depois, comecei a namorar um outro colega de turma, com quem estou até hoje. Quando contei que estava com outra pessoa, ele voltou a me importunar. Tinha ido ao psiquiatra, ameaçava se matar.
Todo mundo ficou preocupado. Ele quis conversar. Marquei na USP naquela sexta, 8 de agosto do ano passado. Ele insistiu para irmos para o lago e termos privacidade. Entramos na trilha e ele só perguntava: “Quem é?” Contei que estava com B., também nosso colega de turma. Ele surtou. Bateu no chão, chutou árvore.
DESPEDIDA
Um lado meu dizia: ‘Vai embora, ele tá louco’. O outro me fez ficar, com medo de ele se matar. Ele se acalmou, sentou ao meu lado, ficou chorando e me xingava. Foi quando falou que queria transar. A despedida.
Eu disse: ‘Você tá louco?’ Ele me puxou pelo cabelo e tentou me beijar. Tentei correr, ele me segurou e falou no meu ouvido: ‘Eu ainda não terminei’. Abaixou minha calça. Senti o tecido da calcinha penetrando também. No momento, você ainda acha que a pessoa vai parar.
Quando mais eu dizia não, com mais força ele me penetrava. Eu dizia que tava me machucando e ele fazia: ‘Xihhh [mandando calar a boca]‘ e me penetrava com mais força. Não foi sexo consensual como ele alega. Depois que ejaculou, ele me largou e eu caí na terra.
Para voltar para a faculdade, no meio da trilha, ele ainda tentou me segurar. Gritei para ele não tocar mais em mim. ‘Você tem ideia do que fez lá atrás? Você me estuprou!’ Ele rebateu: ‘Você queria. Tava molhada’. Estava usando uma pomada para candidíase que teria funcionado como lubrificante.
Ele começou a chorar e a dizer: ‘O que foi que eu fiz?’ Achei que tinha caído a ficha, mas de repente ele deu risada e disse que ninguém ia acreditar em mim. E ameaçou contar para o meu namorado e dizer que eu tinha gostado.
Gritei que ia denunciá-lo. Mas percebi que poderia colocar minha vida em risco. Ainda sozinha com ele, falei: ‘Vamos esquecer isso’.
NA PSIQUIATRIA
Mais tranquilo, ele contou que ia para a UE [Unidade de Emergência, do Hospital das Clínicas] para não fazer algo contra a própria vida. Quando cheguei na faculdade, mandei uma mensagem para um amigo dele dizendo que T. tava muito doente.
Fui para a casa do meu namorado, que me viu toda suja de terra e foi comigo à delegacia da mulher. Lá foi insuportável. Você acha que vai ser acolhida, mas não. Comecei a ser estuprada às 4h30, o ato durou uns cinco minutos, mas só parei de ser violentada quando voltei para casa à noite.
Do balcão, a escrivã perguntou o que me aconteceu, enquanto eu estava lá de pé, tremendo. Pedi uma cadeira. Ela arranjou um lugar para eu sentar, mas sempre com má vontade. Até que a delegada apareceu. Relatei o que tinha acontecido e ela mandou eu voltar outro dia para fazer uma representação e abrir o processo. Quando saí, elas fecharam a delegacia.
Nessa altura, minha mãe já tinha feito um escarcéu. Ligou para a faculdade. Dr. Carlotti [Carlos Carlotti Jr., diretor da Medicina da USP Ribeirão], foi me encontrar na delegacia. Ele me levou para fazer o corpo de delito.
No hospital, fiquei esperando o perito por quase três horas. E quando apareceu, ele foi um grosso. Ficava repetindo: ‘Ah’, ‘tá’. ‘Hum’. ‘Sei.
Na maca, quando foi fazer o exame, também foi um bruto, machucando ainda mais as minhas partes íntimas. Eu falava: ‘Tá doendo, tô ardida’. Ele dizia: ‘Tá tudo normal. Não tem muito material’. Já havia se passado cinco horas. O ginecologista que acompanhou o exame anotou o atraso no prontuário.
Meu cunhado, que é policial, já tinha mobilizado a delegacia de plantão para que prendessem o T. em flagrante. Fui para lá dar um novo depoimento. Tinha tomado calmante, estava grogue. Não conseguia ficar sentada.
O LEGAL E A CDF
Só então fui pra casa. Passei uma semana em Caraguatatuba com minha mãe. Quando voltei para Ribeirão, T. ainda estava preso no hospital, onde ficou algemado à cama até a soltura dias depois. No prontuário, está escrito depressão leve, mas o psiquiatra havia dito que ele estava no estágio cinco de suicídio, o mais alto.
O caso dividiu a turma. Ninguém veio falar nada comigo. Até que um dos amigos do T., começou a espalhar dados do processo entre os colegas e a dizer que eu menti. Para piorar, T. é o popular, enquanto eu sou mais reclusa. Ele vai às festas, bebe, fica quase pelado. Eu estava focada em estudar. Começou um papo na turma: ele é legal, ela ninguém conhece.
Muita gente passou a assumir uma postura hostil em relação a mim. Parecia que eu e o meu namorado tínhamos lepra. Aumentaram os olhares tortos quando a medicina de Ribeirão ficou na berlinda.
Meu caso foi levado à CPI da Assembleia Legislativa de SP. É como se eu denegrisse a imagem da faculdade. Não importa o fato de eu ter sido vítima de uma violência. A mensagem é que eu deveria ficar quieta para não manchar a imagem da medicina.
MACHISMO
Tem muito de ‘Clube do Bolinha’ e de a sociedade ser machista. Não só os meninos. Me impressionou ver garotas com o mesmo discurso. Na CPI, quando leram meu depoimento, uma garota se levantou: ‘Eu não acredito em nada disso, porque ela namora outro’. O que isso tem a ver? Autoriza a violência?
É mais fácil julgar. No ano passado, escreveram no nosso grupo do WhatsApp: ‘Tem uma ovelha negra entre nós’. Sou a ovelha negra. Ele, não.
Não vou desistir. Entendo que para se sentirem seguros meus colegas prefiram acreditar que nada aconteceu. Se fosse com a mãe ou a irmã deles, iam pensar diferente.
T. está afastado da faculdade. Mesmo assim não consigo ir à USP sozinha. É difícil lidar com o medo. Acho que vai acontecer de novo. Suspeito de todos os homens.
A violência vir de alguém próximo é ainda pior. Estou sempre esperando que me magoem de novo. Sexo ainda é um problema. Lembro de tudo, aí sinto dor.
Espero que ele seja condenado, mesmo sabendo que é uma pena de prisão [de seis a dez anos]. Tem gente que diz: ‘Ah, não foi tão grave assim!’ Como? Tenho vontade de gritar: não foi só o meu corpo que ele violou, mas toda a confiança que eu tinha nele.
Quando aconteceu, cheguei a pensar em trancar a faculdade e ir embora. Mas ele não vai tomar mais nada de mim. Ninguém toca nos meus sonhos. Não vou sair da faculdade. Não peço que ninguém acredite em mim, mas que sejam neutros. A Justiça vai julgar o caso.
POBRES X RICOS
Eu já tinha me decepcionado com alguns colegas. Para entrar numa faculdade de medicina a pessoa pode até ser inteligente, mas não quer dizer que tenha bom coração e caráter. Muitas vezes, os mais preparados para o vestibular são os que tiveram oportunidades e dinheiro. E a prepotência vem junto.
Eles não têm noção do que acontece longe dos seus bercinhos de ouro. Eu e o B. fazemos parte da turma pobre da faculdade. E somos poucos. Uma turma que quer fazer medicina da família, cuidar de gente. A maioria quer cuidar de ganhar dinheiro.
Tenho medo de quando eles estiveram no consultório. Como vão atender gays, lésbicas, mulheres negras e vítimas de violência sexual? Vão falar: ‘Ah, não foi assim?’ Vão dar risada na cara da paciente? Vão desconsiderar o que relatam?
Apesar de tudo, não me arrependo de ter denunciado. Se eu pudesse falar com todas as vítimas de violência sexual, eu diria: ‘Vocês têm que ir até o fim’. Muitas desistem, temendo enfrentar delegados, escrivães, peritos, exames, amigos e família. Sei o quanto as vítimas se sentem desamparadas.
Tenho medo que T. volte à universidade, das ameaças, de acontecer de novo. Como conviver com uma pessoa dessa? Espero que ele nunca se forme. Como um médico é um estuprador? Não pode. Temo por todas as mulheres que estão perto dele.”

Jovem denunciada por médico é presa por praticar aborto, Cunha agradece

no Maria Frô

por José Gilbert Arruda Martins
Em "comemoração", não sei se as mulheres e nós homens temos muito a comemorar, mas, ao Dia Internacional das Mulheres, o blog do Professor Gilbert vai replicar e comentar até amanhã as boas matérias sobre MULHERES nos blogs de mulheres como Maria Frô, Morena Socialista etc.
OPINIÃO
Como nós professores e professoras, os médicos e as médicas, exercem uma profissão realmente importante. É, ao meu ver, completamente descabido um médico atuar como esse indivíduo da matéria.
Os médicos e médicas deveriam passar por uma formação a nível de graduação onde tivessem em seu rol de disciplinas, matérias como História e Sociologia.
Você pode dizer, mas essas matérias não deveriam ser vistas lá no Ensino Médio, concordo, a questão é que na Educação Básica, além da má formação dos professores e professoras, você tem, na maioria das vezes, escolas que não permitem o debate aprofundado sobre questões sociais, políticas e econômicas, os educadores e educadoras são completamente impedidos de refletir com profundidade certos conteúdos, principalmente, quando em escolas particulares.
O curso de graduação de médicos está, a meu, por falta de um debate aprofundado e contundente sobre a realidade social, política, cultural e econômica do país, formando médicos que denominamos de "coxinhas" profissionais distantes da realidade do povo que irão atender. Não entendem nada ou quase nada do país e, o que é pior, dão seus pitacos e ainda participam de movimentos golpistas.
Blog do autor: http://professorgilbert2014.blogspot.com.br
Jovem denunciada por médico é presa por praticar aborto, Cunha agradece

Por Maria Frô
Médico dá passe livre ao fundamentalismo de Eduardo Cunha e denuncia à polícia uma jovem em São Bernardo do Campo que foi presa por praticar aborto. A jovem foi solta após pagar fiança.
5. ÉTICA PROFISSIONAL DO SIGILO PROFISSIONAL
Diante de abortamento espontâneo ou provocado, o(a) médico(a) ou qualquer profissional de saúde não pode comunicar o fato à autoridade policial, judicial, nem ao Ministério Público, pois o sigilo na prática profissional da assistência à saúde é dever legal e ético, salvo para proteção da usuária e com o seu consentimento.
O não cumprimento da norma legal pode ensejar procedimento criminal, civil e éticoprofissional contra quem revelou a informação, respondendo por todos os danos causados à mulher.
É crime: “revelar a alguém, sem justa causa, segredo de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem” (Código Penal, art. 154).
(…)
O médico além de ferir a Norma técnica do MS, feriu o Código Penal, art. 154  e ainda feriu o código de ética médica:
DA OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA Código de Ética Médica: “o médico deve exercer a profissão com ampla autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços profissionais a quem ele não deseje, salvo na ausência de outro médico, em casos de urgência, ou quando sua negativa possa trazer danos irreversíveis ao paciente” (art. 7º). É seu direito “indicar o procedimento adequado ao paciente observando as práticas reconhecidamente aceitas e respeitando as normas legais vigentes no país” (art. 21) e “recusar a realização de atos médicos que, embora permitidos por lei, sejam contrários aos ditames de sua consciência” (art. 28). É vedado “descumprir legislação específica nos casos de transplante de órgãos ou tecidos, esterilização, fecundação artificial e abortamento” (art. 43) e “efetuar qualquer procedimento médico sem o esclarecimento e o consentimento prévios do paciente ou de seu responsável legal, salvo em iminente perigo de vida” (art. 48).
Não cabe objeção de consciência: Em caso de omissão, o(a) médico(a) pode ser responsabilizado(a) civil e criminalmente pela morte da mulher ou pelos danos físicos e mentais que ela venha a sofrer, pois podia e devia agir para evitar tais resultados (Código Penal, art. 13, § 2º). É dever do Estado, manter, nos hospitais públicos, profissionais que realizem o abortamento. Caso a mulher venha a sofrer prejuízo de ordem moral, física ou psíquica em decorrência da omissão, poderá haver responsabilização pessoal e/ou institucional.
15 a) Em caso de necessidade de abortamento por risco de vida para a mulher;
b) Em qualquer situação de abortamento juridicamente permitido, na ausência de outro(a) médico(a) que o faça e quando a mulher puder sofrer danos ou agravos à saúde em razão da omissão do(a) médico(a); c)
No atendimento de complicações derivadas de abortamento inseguro, por se tratarem de casos de urgência.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Dúvidas e certezas norte-americanas

POR JOSÉ LUÍS FIORI no Outras Palavras
150303-Obama3
Alerta: os analistas estratégicos mais influentes dos EUA continuam acreditando no “papel essencial” de seu país. E apostam cada vez menos na democracia…
Por José Luís Fiori
“O Deus Todo-Poderoso abençoou nossa terra de muitas maneiras.
Ele deu ao nosso povo corações robustos e braços fortes com os quais
podemos desferir golpes poderosos por nossa liberdade e verdade.
Ele deu ao nosso povo uma fé que se tornou
a esperança de todos os povos em um mundo angustiado”

Franklin D. Roosevelt, 1944
No seu último livro, recém lançado no Brasil, o historiador inglês, Perry Anderson, incursiona no campo da geopolítica e das relações internacionais e reconstitui, de forma impecável, os principais acontecimentos e inflexões da politica externa dos EUA, no período que vai do fim da II Guerra Mundial até o início do século XXI. A política exterior dos EUA e os seus teóricos é uma obra sucinta e que se inscreve dentro da literatura crítica do imperialismo, mas não repete os seus argumentos clássicos, nem acredita, como a maioria dos analistas de esquerda, que os EUA estejam vivendo um “declínio inevitável”, ou algum tipo de “crise terminal”. Para Perry Anderson, a oposição radical ao império norte-americano não “exige garantias do seu recuo ou do seu colapso iminente”. Mais do que isto, Anderson considera que apesar das grandes mudanças geopolíticas que estão em pleno curso nesta segunda década do século XXI, os EUA mantêm sua hegemonia mundial.
Por isto mesmo, o autor dedica a segunda parte do seu livro à releitura cuidadosa do debate contemporâneo, dentro dos EUA, entre os seus principais analistas estratégicos, sobre os caminhos futuros do poder americano. Um debate e uma interlocução que transcende o campo da política externa e não tem preocupações acadêmicas, envolvendo um grupo seleto de autores que trabalham direta ou indiretamente para o Departamento de Estado e de Defesa, e que discutem a estratégia do poder global dos EUA diretamente com a “burocracia imperial” do estado americano, independente de qual seja o presidente ou partido político que esteja no governo. Como é o caso, por exemplo, de Walter Mead, Michael Mandelbaum, John Ikenbery, Charles Kupchan, Robert Kagan, William Kristol, Zbigniew Brzenzinski, Robert Art, Thomas Barnett, Richard Rosencrance, ou Francis Fukuyama, entre outros.
Uma síntese deste debate atual permite identificar algumas grandes dúvidas e certezas que atravessam todos estes autores e que delimitam e anunciam de alguma forma os critérios que orientarão — muito provavelmente — as próximas decisões e os próximos passos que serão dados pelos EUA dentro do sistema internacional. Existem dúvidas e uma discussão intensa, por exemplo, sobre qual a melhor forma de enfrentar o desafio atual da Rússia e da China, pela via do diálogo e da cooptação, ou do atrito e da contenção; sobre qual o grau de autonomia que os EUA devem conceder aos seus pequenos protetorados europeus, em particular à Alemanha; e existem alguns analistas que consideram inclusive a possibilidade e as vantagens de permitir um acesso limitado e tutelado do Irã às armas nucleares. Mas por outro lado, todos estes analistas e arquitetos da “grande estratégia” americana compartem algumas certezas e convicções, como por exemplo:

i) de que os EUA são um povo “escolhido” e indispensável, que tem a responsabilidade de liderar e policiar o sistema internacional, devendo manter de todas as formas a sua supremacia militar global e seu controle absoluto dos mares e oceanos do mundo. Além disto, eles são hoje os responsáveis pela manutenção do domínio mundial anglo-saxônico, que começou com a Inglaterra e se prolonga há 400 anos.
ii) de que acabou-se a distinção clássica entre realistas e idealistas dentro do establishment americano, e hoje todos os partidos e governantes estão obrigados a seguir uma mesma estratégia, que alguns chamam de “wilsonismo realista”.
iii) de que os EUA não podem abrir mão, em nenhuma circunstância, da defesa e da preservação do livre comercio e dos mercados financeiros desregulados. Nenhum deles defende qualquer tipo de fundamentalismo teórico ou ortodoxo, de tipo econômico. Mas todos eles têm certeza de que os mercados abertos e as finanças desreguladas são o principal instrumento de poder internacional dos EUA, antes do uso das armas.
iv) e por fim, quase nenhum destes analistas acredita mais na validez universal da democracia, nem na possibilidade dos EUA exercerem no futuro, uma liderança mundial “hegemônica e benevolente”. Neste momento, a democracia passou para um segundo plano, como instrumento de promoção e defesa dos interesses estratégicos americanos.
A defesa inconteste — de todos estes analistas — dos mercados abertos e das finanças desreguladas é sem duvida um notícia muito ruim para os que ainda sonham com o patrocínio norte-americano do imediato pós-guerra, das finanças reguladas, do desenvolvimentismo, e das democracias do bem-estar social.
Mas o seu desinteresse pela democracia parece obedecer um movimento cíclico dentro da história da estratégia global do EUA. Apesar de que seu idioma obrigatório seja sempre o “internacionalismo liberal e democrático”, os EUA sempre promoveram a democracia de forma seletiva e sazonal. Como ocorreu depois da II Guerra Mundial, quando apareceram como líderes democráticos mundiais durante duas décadas, e depois apoiaram ou mesmo participaram diretamente de todos os golpes e ditaduras militares da América Latina, das décadas de 1960 e 70. Mais à frente, os EUA voltaram a priorizar a democracia, depois do fim da Guerra Fria, e agora parece que voltaram a colocá-la num segundo plano, nesta segunda década do século XX. Os democratas do mundo, e em particular da periferia europeia e da América Latina que ponham suas “barbas de molho”.

As duas faces de Vladimir Putin

POR ANTONIO MARTINS no Outras Palavras
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Paradoxo contemporâneo: embora marcada por autoritarismo e centralização, Rússia tornou-se indispensável para preservar democracia, cada vez mais ameaçada por potências ocidentais
Por Antonio Martins
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Fora da prisão, elas continuam achando que Putin é maior problema de seu país. Mas reconhecem: há cada vez menos manifestações contra ele
Dois intelectuais de projeção internacional publicaram, nas últimas semanas, textos provocadores sobre a Rússia e seu presidente, Vladimir Putin. O escritor e cineasta britânico John Pilger, sempre elogiado por Noam Chomsky, destacou que os grandes jornais do Ocidente conduzem, contra Moscou, uma campanha de mentiras semelhante à dirigida contra o Iraque, às vésperas da invasão norte-americana. Pilger está convencido de que o noticiário internacional no Ocidente deixou-se enquadrar, como na Guerra Fria, pela posição do governo norte-americano. Esta atitude servil ampliaria os riscos de que se concretizem as previsões mais sombrias de George Orwell e submeteria, inclusive, publicações antes respeitáveis e charmosas, como The Guardian. Já o sociólogo Boaventura Sousa Santos advertiu: “Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da UE. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China”.
Como cotejar estes alertas com os textos, abundantes também no Brasil, segundo os quais a Rússia atual seria, em essência, um túmulo das liberdades – um Estado autoritário e conservador? E para os quais seu presidente é um populista disposto a provocar conflitos externos apenas para ampliar, por meio deles, suas chances de sobrevivência? Talvez dois textos publicados hoje por Outras Palavras ajudem a construir uma equação mais nuançada acerca do tema.

A primeira matéria é uma reportagem da jornalista Amelia Gentleman, do próprio The Guardian, sobre a situação atual da banda punk Pussy Riot – em especial Nadya Toloknnikova, talvez sua principal referência. Ela está em liberdade desde dezembro de 2013, quando foi anistiada por decreto presidencial. Porém, passou 18 meses encarcerada, apenas por praticar uma performance antigoverno na Catedral de Moscou. Parte da pena foi cumprida num campo de trabalhos forçados. Nadya, que se corresponde regularmente com o filósofo Slavoj Zizek (parte da correspondência foi editada em livro, Comradely Greetings), acredita que sua atividade na internet é vigiada e de que, devido a sua presença frequente num café de Moscou, aparelhos de escuta foram instalados no local.
Não é um relato isolado. País com escassa história democrática, a Rússia continua distante do respeito amplo às liberdades e direitos humanos. Há eleições regulares para Executivo e Legislativo, porém com constantes denúncias de pouca transparência, especialmente nos pleitos parlamentares (a eleição de Vladimir Putin à Presidência, em 2012, parece ter se dado em condições nitidamente melhores). Embora inexista censura prévia à imprensa, 47 jornalistas foram mortos desde 1992 (trinta deles, no governo pró-ocidental de Boris Yeltsin), sem que os casos tenham sido suficientemente investigados. A liberdade de manifestação é muitas vezes anulada por repressão policial (em especial em regiões distantes de Moscou). Condenações judiciais draconianas são usadas, em alguns casos (como o das Pussy Riots) como forma encoberta de perseguição política. Há denúncias de tortura e abusos nos cárceres e quartéis.
Mas este déficit democrático interno deveria desencadear uma demonização da Rússia e de seu presidente, conforme pretendem a Casa Branca e celebridades como o multibilionário George Soros? Num outro texto, o analista político Selmas Milneargumenta que não. Washington não hostiliza Putin por desejar uma Rússia e um mundo melhor, sugere ele. Age para isolá-lo porque Moscou converteu-se, ao contrário, num grande obstáculo aos planos de construir uma ordem internacional baseada em guerra, vigilância permanente e poder imperial.
Que autoridade têm os EUA para falar de democracia? – pergunta Milne. Não são eles que apoiam ditaduras, sempre que estas atendem a seus interesses estratégicos? Não sustentaram regimes despóticos e fundamentalistas, como o da Arábia Saudita, berço do Emirado Islâmico? Não ajudaram a esmagar a Primavera Árabe, exatamente no momento em que ela estimulava movimentos rebeldes na Europa (Indignados) e na própria América do Norte (Occupy)?
Putin, frisa ainda Milne, não é um democrata, mas um “nacionalista oligárquico”. Mas esta condição, paradoxalmente, leva-o a enxergar a ameaça que Washington representa para a Rússia e para o mundo. E ele tem poder e vontade política suficientes para se contrapor. Graças a tal atitude, Edward Snowden não está preso numa masmorra militar nos EUA, mas refugiou-se em Moscou, onde vive em liberdade. Haveria inteligência em desconhecer este paradoxo? Ou, dito de outra forma: isolar e neutralizar o Estado nacional que resiste mais intensamente aos EUA serviria a quem?
Dois fatos emblemáticos podem ajudar a encontrar a resposta. Na manhã de segunda-feira (2/3), Barack Obama condenou, em entrevista à imprensa, o assassinato do ex-banqueiro e ex-ministro russo Boris Nemtsov, ocorrido na véspera (não há, até o momento, nenhum indício de que Moscou tenha algum envolvimento no crime). O presidente dos EUA considerou que o clima político vivido pela Rússia não é compatível com os direitos humanos.
Hoje pela manhã, o mesmo Barack Obama reuniu-se na Casa Branca com um grupo de assessores seletos, para uma tarefa que se transformou em rotina às terças-feiras. A partir de uma lista de suspeitos (denominada kill list) organizada pela CIA, o presidente decidiu quais inimigos políticos dos EUA serão executados, nos próximos dias, por tiros disparados de drones.
As vítimas não têm o mínimo direito de defesa ou processo judicial. Até agora, entre 2769 e 4494 pessoas foram liquidadas assim, no Paquistão, Yêmen e Somália – três delas no último domingo.
Em nome da democracia e dos direitos humanos, isolemos a Rússia e Vladimir Putin!