segunda-feira, 20 de abril de 2015

Os impolutos políticos pró-impeachment

na Carta Maior

A imprensa protege seus aliados e massacra seus adversários. Se puxassem a capivara dos protetores da moralidade, revelariam uma verdade inconveniente.

Luis Nassif - GGN
GGN
O jogo político no Brasil funciona assim.
Pelo modelo de financiamento político, todos – repito: todos – os partidos e políticos que compartilham alguma forma de poder entram no jogo. Não há nenhuma diferença entre PT e PSDB. A única diferença está na forma como a imprensa atua. Os aliados, ela protege; os adversários, ela massacra.
 
***
 
Na 4a feira passada foi tirada uma foto histórica do encontro de lideranças da oposição com alguns dos agitadores dos protestos do dia 12 de abril (http://migre.me/pw5tJ).
Aécio Neves (PSDB-MG) foi citado em delação do doleiro Alberto Yousseff, com riqueza de detalhes, como beneficiário de esquemas de caixa 2 de Furnas. Desde 2010 está na gaveta do Procurador Geral da República um inquérito em que ele é acusado de manter contas em Liechtenstein – paraíso fiscal.
 
***
 
Agripino Maia (DEM) tem em seu currículo a acusação de receber R$ 1 milhão em propinas de um esquema que envolvia a inspeção veicular no Rio Grande do Norte. O caso está sendo analisado no STF.
 
***
 
Ronaldo Caiado (DEM) foi acusado pelo ex-senador Demóstenes Torres de ter trabalhado para o bicheiro Carlinhos Cachoeira em um caso envolvendo um delegado aposentado.
 
***
 
O ex-deputado federal Roberto Freire (PPS) é suspeito de envolvimento com o chamado “mensalão do DEM”. A diretora comercial da empresa Uni Repro Serviços Tecnológicos, Nerci Soares Bussamra, relatou que o PPS praticava chantagem e pedia propina para manter um contrato de R$ 19 milhões com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Freire teria sido beneficiado no esquema.
 
***
 
O impoluto Paulinho da Força Sindical (SD) é acusado de ter participado de desvio de recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). Foi indiciado também sob a acusação de comercializar cartas sindicais, a um preço de R$ 150 mil por carta.
 
***
 
Mendonça Filho (DEM) aparece na Operação Castelo de Areia, suspeito de ter recebido R$ 100 mil de Camargo Correia. Ele admitiu ter recebido mais, R$ 300 mil, mas dentro da lei – o mesmo que alega o tesoureiro do PT.
 
***
 
O deputado Carlos Sampaio (PSDB), mais votado na região de Campinas, recebeu R$ 250 mil de uma empreiteira envolvida no esquema de corrupção da Petrobras investigado na Operação Lava Jato. Sua última campanha arrecadou, oficialmente, R$ 3 milhões.
 
*** 
 
Flexa Ribeiro (PSDB) já foi preso pela Polícia Federal em 2004, na Operação Pororoca, por fraude em licitações de grandes obras realizadas no Amapá.
 
Antonio Imbassahy (PSDB), quando prefeito em Salvador, em 1999, assinou contratos suspeitos com as empreiteiras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Siemens, que formavam o consórcio responsável pelo metrô da capital baiana. Estima-se um superfaturamento de R$ 166 milhões. Hoje, ele é o vice-presidente da CPI da Petrobras, que investiga desvios de verbas da estatal, onde diretores da Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa também aparecem como réus.
 
Escaparam da foto outros políticos impolutos, como José Serra e Aloyzio Nunes.
 
São esses varões de Plutarco que, graças à parceria com o Ministério Público, assumem a vanguarda da cruzada moralista nacional.
 
Créditos da foto: GGN

Crônica: os tempos da cúpula do Panamá nos caminhos e casas de Cuba

na Carta Maior

Como fazer contato com a realidade cubana sem cair na arrogância de dizer aos cubanos o que está bem e o que está mal e por quê não deveriam se queixar?

Martín Granovsky - Pagina12
Rene Bastiaanssen
Havana - Difícil saber o que há diante do ônibus da frente, parado na estrada. Algo o está atrapalhando, e o obriga a andar a 15 km/h. É Impossível passar. Pelo lado contrário, se aproxima uma pequena caravana e bloqueia o caminho. Primeiro, um gordo pedalando uma bicicleta velha. Atrás dele, dois policiais de uniforme caqui numa moto com sidecar – o de bigodão pilotando. Em seguida, uma Lada Anos 80, aquele carro parecido ao Fiat 125, mas fabricado na União Soviética. O dia é 11 de abril, e estamos na rodovia central de Cuba. O rádio transmite o discurso de Barack Obama no Panamá. Em breve será a vez de Raúl Castro falar.
 
Um cartaz ao lado da estrada diz: “Quem quer, ganha. Quem não se esforça, não quer”.
 
Nessa pista ondulada é melhor relaxar e alternar entre as únicas duas emissoras AM que pegam bem, Rádio Reloj e Rádio Rebelde. Não serão as mais variadas para uma viagem de 10 horas de carro, mas nestes dias até o locutor de voz engomada da Radio Reloj, que diz a hora a cada dois minutos, parece mais interessante. É porque tem notícia. Na preparação da Cúpula das Américas do Panamá, o grande tema para os cubanos era que José Félix Rodríguez estaria no evento. A mesma pessoa que, encarregado pela CIA e por suas próprias convicções, liderou a captura e assassinato do Che Guevara na Bolívia. Ele mesmo, que em 1991 apareceu na Quinta de Olivos – mansão onde moram os presidentes argentinos – acompanhado do cubano anticastrista Jorge Mas Canosa, para uma entrevista com Carlos Menem, onde foi selado o aspecto mais cruel, físico e comercial dessas relações perigosas.
 
Tanto a Rádio Reloj, de notícias com sabor mais artificial, como a Rádio Rebelde, com cobertura jornalística mais presente, informaram os detalhes da presença de Rodríguez e como ela terminou sendo uma provocação que impedia a participação plena no fórum com a sociedade civil do Panamá de gente como Miguel Barnet, presidente da Associação Cubana de Artistas e Escritores – autor que escreveu, aos 24 anos, uma memorável biografia sobre a vida do escravo Esteban Montejo.
 
Outro cartaz de estrada diz: “Unidade, firmeza e vitória”.
 
Fora de Cuba, o Che pode significar utopia, revolução, ideais, solidariedade, idealismo ou ser um ícone numa camiseta. Em Cuba ele é, além de figura legendária, um dos pais da pátria, fundador de revoluções e lutas pela independência, junto com Carlos Céspedes (líder do levantamento de 1868), com o general Antonio Maceo (prócer da independência), com o Mestre, como chamam José Martí, com Fidel Castro e Camilo Cienfuegos. O Che foi comandante da guerrilha e, junto com Camilo, estive ao lado de Fidel tanto em Sierra Maestra como no governo nascido da revolução de 1º de janeiro de 1959. Chegou a presidir o Banco Nacional e encabeçou o Ministério da Indústria. Levar o responsável pela morte do Che a uma cúpula internacional, e a um evento com a sociedade civil, preparatória do encontro dos presidentes, é uma mensagem de ataque não só a uma figura mundial da revolução mas também a um prócer do Estado cubano. Uma figura, ademais, adorada pelo povo, mesmo cinquenta anos depois de sua partida para o Congo.
 
– O que você acha disso? Esse pessoal matou o Che – disse um cozinheiro, irritado, enquanto conta seus segredos para fazer um bom congrí, prato com arroz e feijões negros, também chamado moros y cristianos.
 
Para ele, na noite de 10 de abril, um dia antes do grande encontro dos presidentes marcado para o sábado 11, a cúpula é de tamanho impacto que justifica ligar o televisor inclusive antes do começo de um grande duelo de beisebol, onde se enfrentam Tigres contra Piratas.
 
– Rodríguez foi comido pelos vermes?
 
– Bom, em Cuba já não usamos essa palavra. É um pouco agressiva – corrige o cozinheiro, tão furioso com Rodríguez como atualizado na diplomacia.
 
Ali perto, dois garotos jogam ludo. Sem smartphones e quase sem Internet, sem Play Station ou tablets, sem telas, brincar sem a eletrônica é uma ótima opção. Funciona tanto dentro de casa, sobre a mesa familiar, como nas ruas de Santiago de Cuba, onde um grupo de rapazes jogam uma eletrizante partida de dominó. Os quatro sustentam sobre os joelhos a tábua de madeira sem pernas que serve de mesa. Parecem não ter medo de nada, talvez porque não há carros. Nem ladrões.
 
Mais um cartaz na estrada, diz: “Ser eficiente é vencer”.
 
As rádios estão há uma semana se preparando para a cobertura. O anúncio é direto. “O general do Exército Raúl Castro Ruz, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros de Cuba, comparecerá à Sétima Cúpula das Américas”. Vem a voz de Raúl avisando, com seu tom áspero, que estará no Panamá “por convite do presidente Juan Carlos Varela”. Não devido a um acordo com os Estados Unidos, é o que Raúl quer dizer, ainda que seja óbvio que Varela ganhou uma piscadela de Washington, quando, em dezembro, dias depois do anúncio da normalização das relações por parte de Obama e Castro, pediu a Cuba que participasse da Cúpula. Era uma boa ocasião para passar da palavra ao símbolo e do símbolo aos discursos e ao encontro entre os dois, sem buscar especialmente um terceiro país. Como quem quer nada enquanto, obviamente, está querendo algo.
 
É difícil saber se a coisa será tão rápida como parecia em dezembro. Para começar, o turismo norte-americano aumentou, mas não há uma invasão. Por enquanto, o trânsito abarrotado como se vê na marginal no final da tarde, ou na Imigrantes em feriados prolongados, continua ausente (nota da tradução: abrasileirei, ou paulistanizei, exemplos argentinos usados pelo autor). Nem lento nem rápido. Mas o caso da Cuba que anseia novos turistas não é uma questão de quantidade mas sim de qualidade de protagonistas e da frequência com que o tipo de ator se cruza com outro num mesmo caminho. O ônibus que vinha em frente acelera. Podemos acelerar também, e fazer a lista do que havia. Primeiro um carro com duas pessoas a bordo, rodas de bicicleta e toldo. Depois um Chevrolet modelo 1950. Logo, parado, um caminhão dos Anos 40, reconstituído com motor a diesel. Os veículos a diesel em Cuba são chamados de “petroleiros”. O carro parado atrás não pega o acostamento. Ou sabe que ninguém atrás dele vai importunar, ou espera porque não existe acostamento, nem de palha. E ninguém atrás toca a buzina.
 
O novo cartaz diz: “A revolução é invencível”.
 
Obama fala. Se escuta apenas um trecho de sua voz, com a da tradutora se sobreposta. Obama diz, sobre as relações com Cuba, que “os Estados Unidos não serão prisioneiros do passado”, o que não significa que o esqueceu, mas que preferiu omitir politicamente, e “olhar para o futuro”.
 
Pela mão direita da rodovia central, porque os carros também andam pela rodovia central de Cuba, a que une os 968 quilômetros entre Havana e Santiago, vê-se os barracões agrícolas. É a zona do açúcar. A safra está por terminar. A Rádio Reloj informa que será a maior safra em 11 anos, com 22% de crescimento entre a colheita que termina e a do ano anterior. Não há publicidade comercial mas tampouco barracão sem consigna.
 
O cartaz diz: “Nascemos para vencer. Guinada para sempre”.
 
Raúl fala. Todos riem quando ele diz: “Já era hora de eu falar aqui em nome de Cuba”. Pode-se ouvir as gargalhadas diante da ideia de que não se contentaria com os oito minutos concedidos a cada presidente, mas que usaria 48 minutos mais, acumulados das seis cúpulas anteriores, das que Cuba foi excluída.
 
Castro mencionou várias vezes a expressão “América latina”, mas só depois de usar outra, “nossa América”, a forma em que Martí falava da América que ficava ao sul dos Estados Unidos e que socialmente devia ser também a do mestiço, do índio e do negro. Seu discurso foi, em boa medida um resumo histórico da relação com Washington.
 
“No Século XIX, surgiram a Doutrina do Destino Manifesto, com o propósito de dominar as Américas e o mundo, e a ideia da Fruta Madura para a gravitação inevitável de Cuba à federação norte-americana, que desdenhava do nascimento e do desenvolvimento de um pensamento próprio e emancipador ao sul de suas fronteiras”, recordou. O irmão de Fidel continuou: “Há 117 anos, no dia 11 de abril de 1898, o então presidente dos Estados Unidos solicitou ao Congresso a autorização para intervir militarmente na guerra da independência, já conquistada com rios de sangue cubano, e este emitiu sua enganosa Resolução Conjunta, que reconhecia a independência da ilha ‘por direito e fato’. Entraram como aliados e se apoderaram do país como ocupantes. Foi imposto a Cuba um apêndice em sua Constituição, a emenda Platt, que a despojou de sua soberania, enquanto autorizava o poderoso vizinho a intervir nos assuntos internos, o que deu origem à Base Naval de Guantánamo, a que até hoje usufrui da usurpação de parte de nosso território”. Disse Raúl Castro que em 1º de janeiro de 1899 os militares norte-americanos entraram em Havana. Justo 60 anos antes da derrubada da ditadura pró-estadunidense de Fulgêncio Batista. Ciclos: em 2019 a revolução fará 60 anos. Como serão as próximas seis décadas?
 
O cartaz diz: “Pátria é humanidade”. Assina Martí.
 
A cafeteria El Paso está no caminho em direção a Los Arabos, na rodovia central, em zona bastante povoada, com cidadezinhas como Jovellanos e El Perico. Fica perto de Santa Clara, citada na célebre canção Hasta Siempre como a que desperta para ver a lembrança dos passo do Che rumo a Havana, após a vitória guerrilheira em Sierra Maestra. Se você espera cinco minutos eles servem café, e emprestam o banheiro se você esperar que o deixem mais decente. A terra é seca. Atrás do mostrador, um letreiro divulga a semana de cinema da diversidade sexual. Com o café já preparado, delicioso como em toda Cuba, passadas as cinco da tarde chega uma adolescente de camisa bege, jaqueta branca e um pano do mesmo tom da camisa. O uniforme é dos primeiros anos da escola secundária. O dos pré-escolares é azul. Na primária é bordô. A garota parece andar se arrastrando, como costuma-se andar depois da escola. Mas estava impecável, penteada, elegante. Uma privilegiada, diria Perón. Os ensinos fundamental e médio são obrigatórios e dá a impressão que, para os cubanos, essa obrigatoriedade é sagrada. Em Havana, há muitas crianças brincando na rua. Algumas bem vestidas. Outras descalças. Algumas de camiseta e outras descamisadas. Algumas com bola de futebol e outras sonhando que são rebatedoras da seleção de beisebol. Em Santiago, as crianças estão nas ruas, brincando. Nas regiões mais rurais, em setores onde é preciso andar muito para buscar água e a luz elétrica é um milagre, as crianças estão brincando. No campo, uma parte do trabalho é feita com arados de ferro puxados por bois. Nas imediações dos caminhos mais precários, os camponeses conduzem suas carroças carregadas de cana. Entretanto, à exceção dos fins de semana e feriados, é impossível ver um menino ou menina ao lado de um boi ou na carroça de cana. Devem estar – é o que se supõe, e parece que cumprem com essa obrigação – na escola. Existe algo que não se pode ver em Cuba: crianças trabalhando. Outra coisa, ao menos aparentemente: crianças pedintes. Os mais pequenos, que ainda não têm idade escolar, nem eles acompanham os camponeses nas carroças, ou ajudam os que oferecem um quarto ou uma casa para ficar, um táxi Plymouth conversível, um táxi Lada, um táxi sidecar em forma de coco puxado por uma moto, um tabaquinho, uma informação sobre o melhor mojito, um restaurante com varanda e música em Santiago porque depois o dono me paga com uma garrafinha de azeite, um rum envelhecido que meu amigo traz direto da refinaria e você vai pagar mais baratinho.
 
O que mais se escuta dentro e fora de Cuba é que a Revolução Cubana garantiu e garante saúde e educação gratuitas. Os cubanos formam clínicos que trabalham como médicos de família. O médico da comunidade, que é sempre o mesmo, opera como primeiro recurso. Depois dele, se necessários, virão os especialistas ou os hospitais.
 
Saúde e educação garantidas formam uma base sólida. Aumentam a expectativa de vida, asseguram a nutrição inicial e oferecem um piso para construir a autoestima. Os fenômenos, claro, não têm uma única cara, porque a existência de diversos mercados também simplifica o comércio e cria distorções. Alguns dos taxistas cinquentenários do Parque Céspedes, em Santiago, ou do Parque Central, em Havana, falam quatro ou cinco idiomas. Espanhol, sem dúvidas. Inglês aprendido sistematicamente. Francês aprendido na rua. Italiano, igual. E russo. De onde saiu o russo? De ter estudado engenharia na antiga União Soviética, antes da implosão de 1991. É possível encontrar um desenhista de aviação oferecendo passeios para turistas nessas cidades. Significa que não tem trabalho para engenheiros? Sim, existe. O problema é que um engenheiro cobra seu salário em pesos, moeda nacional, em quantidade que não supera os 25 dólares mensais. Equivale a cinco corridas normais de táxi. Muitos profissionais combinam o trabalho que gostam e para o qual estudaram com o que se pode juntar um pouco mais de dinheiro. Outros, talvez mais cansados, ou mais velhos, já se voltaram totalmente ao mundo que lhes permite aumentar notavelmente seu poder aquisitivo. É, por um lado, um evidente desperdício de recursos. Foram formados pelo Estado com conhecimentos e habilidades que não usarão no setor originário. Mas é possível que a mescla de formação sistemática e iniciativa os transforme no começo de novas cooperativas de turismo e construção.
 
Como interagem em Cuba as diferenças culturais e os passados diversos?
 
Cartaz ao lado da estrada: “Fim da injustiça. Entramos com tudo na hora sagrada da revolução”.
 
Discurso de Raúl: “tivemos que suportar grandes dificuldade: 77% da população cubana nasceu sob os rigores impostos pelo bloqueio”.
 
Na mensagem, o presidente cubano busca ser cordial com seu colega de Washington, o primeiro que não só planeja uma aproximação com Cuba mas que também a realiza. “Viemos expressar publicamente ao presidente Obama, que também nasceu sob a política de bloqueio a Cuba, e que ao ser eleito a herdou de dez presidentes, nosso reconhecimento por sua valente decisão de se envolver num embate com o Congresso de seu país para por fim a ele”.
 
Em seguida, Castro não perde a chance de realizar uma precisão. “Até hoje, o bloqueio econômico, comercial e financeiro se aplica em toda a sua intensidade contra a ilha, provoca danos e carências ao povo e é oobstáculo essencial ao desenvolvimento de nossa economia. Constitui uma violação ao Direito Internacional e seu alcance extraterritorial afeta os interesses de todos os Estados”.
 
– Não se pode por menos açúcar no mojito – insiste o moço da rua Obispo, no coração da velha Havana –, muda o sabor. Você é da Espanha?
 
– Argentino. Então me vê um com todo o açúcar que puder.
 
– Argentino… escutaram o discurso do Raúl? A presidenta de vocês também falou, com firmeza.
 
Cristina Fernández de Kirchner, logo depois de Raúl Castro, valorizou a retomada do diálogo como uma “atitude positiva de Obama”. E disse: “Tenhamos claro que Cuba não está aqui e nós não estamos aqui presenciando o encontro de dois presidentes que depois de muito tempo decidiram apertar as mãos. Não, senhores. Cuba está aqui, porque lutou por 60 anos com uma dignidade sem precedentes. Com um povo que sofreu e sofre ainda muitíssimas privações, e porque esse povo foi conduzido e dirigido por líderes que não traíram sua luta, e foram parte dela”.
 
Cartaz na estrada: “Decisão, coragem, valentia”.
 
Os cubanos protestam contra o bloqueio, mas parecem temer mais os efeitos sociais, culturais e psicológicos, que ainda desconhecem em todo o seu alcance, do chamado Período Especial. Um forma quase carinhosa de descrever o tremendo sofrimento social vivido pela ilha a partir de 1991, quando a nova Rússia pós-soviética cortou seus laços e os subsídios. Os relatos contam coisas horríveis. Os que hoje são gordos ou gordinhas olham suas fotos daquele então e se encontram fracos e magrelos. Não tinham comida suficiente, nem transporte. Longas caminhadas em direção ao trabalho e de volta dele. Quando podiam comprar algum transporte alternativo, uma bicicleta para vencer os quilômetros de ida e volta, mas ela também custava caríssimo.
 
– Você viu que as tumbas trazem a sigla QEPD?
 
– Sim, que em paz descanse.
 
– No Período Especial dizíamos que deveriam por NR.
 
– NR?
 
– Não resistiu.
 
O humor cubano relaxa. Tira o dramatismo da coisa. Explica o que uma vez disse Pablo Milanés: “Viver em Cuba é um encanto e um inferno”. É possível medir, mais que com o humor, o impacto que o Período Especial teve na sociedade? Trabalho para sociólogos, historiadores, antropólogos. Aos que hoje têm 30 e poucos, essa etapa os pegou entre cinco e quinze anos de idade. Se lembram. Os que têm 40 e poucos, que tinham entre 15 e 25, lembram ainda mais. Os maiores de 50 então…. Nessa última categoria, que agrupa os nascidos com a revolução ou que eram crianças ou bebês em 1959, um elemento comum atua: ninguém quer falar com detalhes de uma etapa de tanto sofrimento. Dão títulos e se calam. Às vezes deixam escapar no relato um certo orgulho de haver aguentado a prova. Às vezes pode-se detectar uma amargura tão bem retratada por Leonardo Padura nos personagens de sua novela “Hereges”. Mostram frustração, mais que ressentimento, e dor mais que ódio, porque não se trata de gente como José Félix Rodríguez mas sim de simples cubanos que enfrentaram à sua maneira uma crise que afetou a todos. As coisas hoje estão mais misturadas. Um matrimônio de veteranos comunistas pode ter um filho que vive em Miami porque, simplesmente, não suportou as privações e pensa que as chances são maiores fora de Cuba. Uma irmã pode ter outra irmã na Florida. Tem vontade de vê-la, mas não quer dar o braço a torcer. Não a critica, mas por quê ela não vem primeiro em vez de me dizer que eu devo viajar? Um empreendedor que cria porcos em Camagüey e que logo criará frangos, associado a outro camponês, se queixa porque não existe um mercado de milho. Sua mãe, engenheira, recebida na União Soviética, reside em Tampa. E diz a ele para ir para lá, onde há futuro. Ele intui, crê, e sobretudo faz o possível para que a transição a um país menos centralizado e menos estatal o mantenha em Cuba.
 
Cartaz: “A batalha econômica constitui hoje, mais que nunca, a tarefa principal”. Assina Raúl.
 
Como fazer contato com a realidade cubana, por estes dias, sendo um latino-americano de esquerda, ou nacional e popular, ou simplesmente humanista, sem cair na arrogância de dizer aos cubanos o que está bem e o que está mal e por quê não deveriam se queixar dos problemas trazidos pelo consumo? Cuba não é socialmente injusta como seus vizinhos Haiti, República Dominicana ou Guatemala. Também é verdade que os cubanos têm um sistema sanitário mais democrático que o dos Estados Unidos e um sistema educativo que, pelo amplo acesso gratuito, só pode ser comparável ao da Argentina, ao menos no continente. E é especialmente curioso que as crianças de hoje e as que foram crianças durante o Período Especial, sempre durante o bloqueio, ainda se sentem portadores de direitos. Um cubano poderá dizer: “Concordo com o quevocê expõe, mas acho que poderíamos estar melhor com menos burocracia”. Outro poderia pedir, de forma concreta, um mercado atacadista o qual Cuba carece. Outro, poderia pedir mais liberdades que reformas, mais glasnost que perestroika. Outro, mais reformas que liberdades. Outro, a volta mais rápida dos pequenos comércios, a revolução desapropriou tanto quanto a General Electric, e que hoje pensa-se como poderiam ser repostos junto com o setor estatal e o setor público cooperativo dentro do que o governo chama de “processo de atualização”. Todos exigirão Internet.
 
E o que acontecerá com os Estados Unidos? O cenário mais provável é uma reconexão gradual, muito gradual, porque pesam ao menos dois elementos. De um lado, a necessidade de contar com fornecimento e orçamento. Do outro, o cuidado que os cubanos têm em saber que Cuba fica numa área colonial de Washington, onde a ideia do quintal é literal, tal qual escreveu Martí na famosa carta a Manuel Mercado, de 18 de maio de 1895, conhecida como seu testamento político, já que foi morto na guerra no dia seguinte.
 
Disse Martí: “Já posso escrever (….) por meu dever de, com a independência de Cuba, impedir a tempo que os Estados Unidos estendam seus domínios pelas Antilhas e avancem com ainda mais força sobre nossas terras da América. Quando o fiz, e continuarei fazendo, é por isso. Nem o silêncio deve ser, como tem sido indiretamente, porque há coisas que precisam estar ocultas para serem alcançadas”.
 
O cartaz diz: “Comunidade audaz”.

Mais Respeito Por Favor

por José Gilbert Arruda Martins

Vou plagiar um texto de um professor Italiano que conheci numa das minhas passagens por Hostel em Niterói-RJ, escrevia ele em sua fanpage "Você não precisa ser negro para apoiar o movimento negro, não precisa ser gay para apoiar os gays..."
Foto: PG

Em uma visita ao Campus Cidade Universitária da Universidade Federal do Rio de Janeiro, me deparei com a fotografia da Campanha "Mães Pela Igualdade".

Uma campanha da Universidade, usando as mães e seus próprios filhos gays, em cartazes e palestras. Uma ação, para mim, genial, contra a discriminação, a violência e a homofobia.

"Eu Preciso lhe Dizer - Pessoas comuns depõem sobre sua homossexualidade, assim como mães e pais, sobre a de seus filhos, colocando seus sentimentos e suas experiências para o espectador afim de descobrir as origens do preconceito e, encontrar uma forma de como lidar com a intolerância na família e na sociedade."
Mais Respeito Por Favor. Nós professores e professoras, todos os dias de nossas vidas no trabalho, encontramos e nos deparamos com histórias individuais incríveis, garotos e garotas gays que sofrem todo tipo de violência e desrespeito.

O desrespeito e a violência acontece dentro da escola, um espaço que deveria ser de respeito à diversidade. Dezenas de jovens escondem sua homossexualidade para poder ser aceito pelo grupo.

Imaginem como esses jovens sofrem a solidão por não ser visto como é, e como quer ser. Repito, não precisa ser gay para respeitar o gay.

"Mães Pela Igualdade" da UFRJ realmente me chamou a atenção, é um movimento político, suprapartidário de mães e pais corajosos e assumidos que levantam suas vozes em favor do respeito à diversidade, da igualdade de direitos, da fraternidade e exigem o fim da discriminação e da violência às pessoas LGBTT (Lésbicas, Gays, bissexuais, Travestis e Transgênero) no Brasil, por amor a suas filhas/filhos e em respeito à diversidade.

Fico imaginando, se nossos colegas diretores e professores, tivessem a coragem de elaborar um planejamento com o tema e desenvolvê-lo durante o ano letivo nas escolas. Local onde o tema receberia o destaque que realmente merece.

Mais Amor, Por Favor.




domingo, 19 de abril de 2015

Dois dias, uma noite: A solidão do trabalhador no século 21

na Carta Maior

O filme 'Dois dias, uma noite' mostra que a saída para a classe trabalhadora da Europa e do mundo ainda é esta: continuar lutando.

Léa Maria Aarão Reis
reprodução
Sandra é operária de uma fábrica, na Bélgica, é casada e tem dois filhos. Vem de uma licença médica por causa de uma depressão, obtida meses antes de começar a sua história neste belo filme dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, o Dois dias, uma noite. Nele, a cultuada francesa Marion Cotillard é indicada para ganhar um segundo Oscar de Melhor Atriz. Embora sua atuação seja tocante e empolgue, é o roteiro original de Deux jours, une nuit, dos Dardenne, inspirado em um fait divers como eles declararam em entrevista, que chama a atenção. É um roteiro excelente.
 
Sandra vive e trabalha em um país, a Bélgica, com alto índice de desemprego – cerca de 8%, o dobro dos 4,3% que tivemos no Brasil, ano passado. Isto significa que aqueles que estão empregados pisam em ovos para não serem despedidos - o que pode ocorrer a qualquer momento nesse tempo ‘austero’ que atinge em cheio (apenas) os trabalhadores e a pequena classe média.
 
Numa sexta-feira como outra qualquer, Sandra é demitida em um processo de ‘flexibilização’ no quadro de funcionários da fábrica. A empresa manipula e usa os seus próprios colegas para votar: ou eles recebem um bônus de mil euros e Sandra vai para a rua ou ela continua no grupo e eles ficam a ver navios. A maioria vota pelo bônus. Mas uma segunda votação é acertada com seu patrão. Mais um acordo indecente. Ele concede que haja uma nova votação na segunda-feira seguinte. Os colegas terão a chance de decidir, definitivamente, se abrem mão do bônus de mil euros oferecido pela empresa e a companheira mantém o emprego.
 
Sandra passa um fim de semana, dois dias e uma noite de mundo cão. Compungida, vai de porta em porta de suas casas tentando convencer os colegas a mudar o voto e reverter a aflitiva situação. O bem-estar básico da sua família, embora o marido esteja empregado, depende do salário dela. A nova rodada da segunda-feira decidirá o seu destino. A moça faz das tripas coração, engole qualquer resquício de amor próprio e vai à luta procurando manter a dignidade e a calma no meio de imensa tensão.
 
Dois Dias, Uma Noite discute a solidariedade individual da classe operária no mundo submisso dos que estão embaixo aos que se encontram no topo; um mundo submetido à ganância do capital internacional e à crueldade das direitas face às necessidades da classe trabalhadora. O filme fala de um mundo no qual o sindicalismo, o estado de bem estar e a social democracia europeia afrouxaram. Na história de Sandra não há sindicato ou instituição de classe que possa ajudá-la. Ela está sozinha.
 
Em um livro de sua autoria, Au dos de nos images (Atrás das nossas imagens), sobre o cinema que ele e o irmão praticam, Jean-Pierre sugere que “o trabalhador hoje se tornou uma pessoa solitária, membro de uma espécie em extinção.” E pergunta: “Será que seu desaparecimento deixará algum legado? E qual seria ele?”
 
Uma das questões a ser discutida é esta: a solidariedade ainda existe na classe operária, no plano individual? Ou é uma utopia? No cinema dos Dardenne há uma crença otimista: há uma saída. Mas neste momento a humanidade está rachada e isso aflora em seus também belos filmes anteriores: Rosetta e A Criança, ambos Palma de Ouro em Cannes, e em O Garoto de Bicicleta, de 2011.
 
Antes, a solidariedade poderia prevalecer, os Dardenne afirmam. Mas nos nossos tempos de crise do capitalismo tardio é a competitividade e o egoísmo que pautam as relações de trabalho. ”O mundo mudou muito nos últimos anos. A Europa tem saído às ruas para protestar pedindo empregos e transformações sociais. Nosso filme de agora ficou bem mais forte e mais atual."
 
Em Dois dias, uma noite, um dos colegas de Sandra mostra seu mal estar com o dilema em que se encontra. Protesta: ”Mas eu não tenho culpa que seja assim”. Ao que ela responde: “Nem eu!” Outro deles, quando encontrado, lamenta: “Eles nos jogam uns contra os outros.” Por covardia, omissão, medo e, sempre, por necessidade urgente – pagamento das tarifas de luz e de gás, uma pequena reforma na casa, o sustento dos filhos na escola e na universidade. Vários companheiros negam o voto a seu favor.
 
Dois detalhes importantes neste belo filme. Um deles: todos os do grupo precisam fazer biscates em fins de semana porque o salário do trabalho, já precário, não fecha o mês. Outro: o colega que acaba mudando o voto contra a permanência de Sandra e abre mão de seu bônus é o que talvez mais precise do dinheiro - o jovem imigrante africano cujo contrato de trabalho é temporário.
 
E o lembrete dirigido aos inocentes (?) que escreveram sobre ele minimizando e considerando exagerado o sofrimento de Sandra. Provável eles nunca terem provado o horror de ser apanhado na rede de tal jogo perverso. Pois saibam: no fim dos anos 50, o proprietário de um jornalão carioca em ascensão já usava, e com orgulho, a mesma estratégia da empresa belga de Sandra. Na sua redação jogava uns jornalistas contra os outros. “É a mesma prática da General Motors, nos Estados Unidos; aumenta a produtividade,” nos disse certa vez o patrão, sem qualquer pudor.
 
Sem sentimentalismo algum, em seu filme neorrealista quase um documentário – por sinal, esta é a origem dos seus autores-, os Dardenne mostram que a saída é esta: continuar lutando.

No documentário 'Nostalgia da Luz', as mulheres não esquecem

na Carta Maior

'Vou procurar o meu noivo até morrer', diz uma mulher determinada a encontrar os restos mortais do noivo assassinado pela ditadura de Pinochet.

Léa Maria Aarão Reis
reprodução
Se um festival de cinema apresentasse apenas um filme, Nostalgia da Luz (Nostalgia de la Luz), de um dos maiores documentaristas do mundo, o chileno Patrício Guzmán, já teria valido a pena. É extraordinário o documentário de Guzmán, premiado em Cannes em 2010 quando foi a grande novidade cinematográfica, na Europa.
 
De uma beleza plástica limpa e íntegra, aquela que está sendo corrompida por artifícios de imagem baratos, e sem qualquer maneirismo vulgar próprio do cinema de massa americano, A Nostalgia da Luz reúne de modo natural, três conteúdos fundamentais do nosso tempo: o retorno a uma qualidade inquestionável do verdadeiro cinema, um questionamento político que faz parte, cada qual ao seu modo, da vida de todos os cidadãos - mesmo os mais alienados da realidade - e a soberana poesia, que torna a existência humana suportável.
 
Com roteiro enxuto e preciso onde nada é demais nem de menos, o filme se passa no deserto do Atacama, no norte do Chile, o local mais seco do planeta. Lá, astrônomos, arqueólogos e mulheres – no início, elas eram um grupo de cinquenta mulheres, depois, não mais que dez porque envelheceram e, com o tempo, vão morrendo – procuram no espaço, na terra e na areia, rastros de estrelas mortas, vestígios de passados remotos e restos de homens e mulheres assassinados pelo regime de Pinochet que foram enterrados ou jogados de helicópteros militares, se não no mar, na imensidão desse deserto desolado.
 
“Vou procurar o meu noivo até morrer”, diz uma das mulheres espantosamente determinadas, em depoimento a Guzmán. Outra, em sua fala, com infinita tristeza prova como, com o ar seco da região, os ossos e os restos dos mortos se mantêm intactos, inclusive com as roupas usadas pelas pessoas quando foram abatidas: ”Encontrei um pé do meu irmão... reconheci pela meia dele ... levei para casa... quis ficar com o pé durante dois dias...”
 
Essas mulheres, da geração que chegou aos setenta, oitenta anos, são “a lepra do Chile”, como elas mesmas se dizem. Estão sós na sua permanente busca. É o único grupo de pessoas que, até hoje, procura por parentes assassinados sem o apoio das diversas instâncias de governo nem da própria sociedade. “Elas denunciam um país que os outros indivíduos desejam esquecer”, disse Guzmán, cinco anos atrás, depois do premio de Cannes, em entrevista ao blog Bilhetes de Paris, da jornalista Leneide Duarte-Plon.
 
Obsessivamente, essas mulheres escavam, com pequenas pás domésticas, e vão encontrando mínimos fragmentos de ossos. Constituem uma imagem impressionante da força da tragédia, raras vezes vista no cinema. O momento mais emocionante do filme é o narrador – o próprio Guzmán -, mostrando, através das lentes poderosas dos telescópios, as chuvas dos flocos de cálcio escorrendo, desolados, das estrelas, como lágrimas. O narrador lembra: ”Nós, humanos, somos feitos da mesma matéria das estrelas”.
 
Na época, Nostalgia da Luz ganhou entusiasmadas resenhas das mais sérias publicações europeias. Le Monde observou: ”É um filme extraordinário”. E L’Humanité: “ De uma beleza de tirar o fôlego”. A revista Première comparou: “Uma fábula kubrickiana”, lembrando a epopeia de Kubrick no espaço.
 
Sobre um documentário anterior de Patrício, a trilogia de A Batalha do Chile, a revista Cinéaste já observara: ”Trata-se de um dos dez filmes políticos mais importantes já realizados”. Guzmán tem 74 anos, vive em Paris e é casado com uma psicanalista francesa, Renate Sachse - que foi a produtora de Nostalgia da Luz. Já fez dois docs importantes - Allende e O Caso Pinochet. Este ano, em fevereiro passado, ganhou o premio do júri ecumênico do Festival de Berlim com El Botón de Nácar onde a sua metáfora para reviver a memória está na água dos oceanos, as águas da Patagônia, o cemitério de muitos que foram jogados ao mar, dos helicópteros, pela ditadura Pinochet. “O meu objetivo é procurar que se devolva os corpos, “ disse Guzmán, na Alemanha,” para que os mortos terminem de morrer e os vivos sigam com vida.”
 
O filme deve entrar em cartaz em outubro, em Paris. Imperdível.
 
- Atualizado e adaptado de www.umacoisaeoutra.com.br

O susto ao som da cumbia de los Andes

na Carta Maior

O filme peruano 'A teta assustada' mostra uma doença existente nas lendas populares que pulsa no imaginário de alguns povos andinos.

Léa Maria Aarão Reis
reprodução
Não é exatamente um pequeno grande filme.  Mas ele é um pequeno – uma hora e 24 minutos de espetáculo – precioso e surpreendente filme. Ainda mais vindo de um país cuja cinematografia não tem tido nada de mais a declarar. A Teta Assustada (La teta asustada), sucesso internacional quando foi lançado, seis anos atrás, ganhou o Urso de Ouro em Berlim, e outros prêmios em Havana e Guadalajara, além de melhor atriz e direção no nosso Festival de Gramado. De quebra, foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009. Chamou a atenção, portanto, lá fora e aqui, no Brasil, onde a crítica, na época, foi entusiasmada.

Nossa sugestão é revê-lo nesta semana na qual uma importante Cúpula da Unasul está sendo aguardada com expectativa. Será mais uma oportunidade para conhecer melhor a cultura popular, os medos, o sofrimento, as crenças, costumes, raízes e lendas dos nossos conterrâneos latino-americanos.

A direção e roteiro de A teta é de Claudia Llosa, 39 anos, sobrinha do escritor Mario Vargas Llosa. Ela apresenta a história de Fausta, moça indígena moradora da periferia de Lima, que implantou uma batata na sua própria vagina para se proteger e evitar possíveis futuros estupros. Sua mãe idosa, recém-morta, sofrera violência sexual durante os anos do “terrorismo” no Peru, como se registra no decorrer da narrativa, e ela própria era fruto de um desses estupros. A mãe havia sido vítima dos guerrilheiros do Sendero Luminoso, que violavam camponesas suspeitas de colaborarem com o governo ou dos militares que os combatiam e por sua vez também atacavam as mulheres? Não fica claro.

Embalado pelas pungentes canções que lamentam perdas irreparáveis, saudades infinitas, e ritmadas pelas danças da cumbia andina nas longas cerimônias de casamentos, a sua bela trilha musical às vezes é alegre e contagiante; em outras assume o tom lancinante do lamento. A atriz protagonista, de voz cativante e extrema sensibilidade, Magaly Solier, sozinha, carrega bem o filme. E na trama, mais uma vez, como vem ocorrendo na maioria das produções atuais realizadas no continente, é mostrado o abismo (ainda) intransponível separando e contrapondo as classes populares, o povo, e a burguesia da casa grande – os abastados. Desigualdade devastadora.

A jovem Fausta teria, segundo crenças antigas e o folclore peruano, uma doença rara, a teta assustada, transmitida pelo pavor e sofrimento das mães estupradas às suas filhas através da amamentação. Nos momentos de pânico e de susto, seu nariz sangra abundantemente.

No presente, porém, Fausta precisa enfrentar a morte da mãe, sua única amiga, e pretende enterrá-la em sua cidade natal, na província à beira do mar. Mas não tem dinheiro para tal.

Trabalhará como doméstica na casa de rica e conhecida cantora de música erudita que vive uma crise de criatividade e está prestes a se apresentar no seu concerto anual. Fausta precisa do salário para o enterro da mãe. Ao entrar no emprego os seus dentes e as unhas são examinados, e o corpo deve ser limpo. A moça é tratada como coisa e objeto - escrava. É sempre subserviente.

Ao ouvi-la cantarolar uma bela canção de raiz popular, um pouco criada pela invenção da própria Fausta, que fala de saudade, do esquecimento e da falta – ‘não me olvide’ -, a patroa se inspira no tema, apropria-se dele e o transforma em música ‘culta’ para deleite dos amantes da erudição. É grande o sucesso.

Acaba-se, a partir daí, a pequena vida de Fausta na casa grande. A culpa e o rancor da rica mulher por tê-la usado são maiores do que o respeito e o reconhecimento do papel importante que a jovem empregada desempenhou nesse episódio secreto da sua vida profissional.

De volta para casa, vinda do concerto, à noite, Fausta é posta para fora do automóvel da patroa.

A teta assustada é uma doença existente nas lendas populares. Ela pulsa no imaginário de alguns povos andinos. A semiescravidão em que vivem moças pobres de origem semelhante à de Fausta, vindas da periferia das metrópoles e das províncias dos países da América Latina, não. É uma realidade ainda no Brasil onde a legislação trabalhista luta para aprofundar os direitos das domésticas.

Também não é folclore a quase epidemia de estupros que grassa não apenas no Peru, mas nas duas Américas, México e EUA inclusive. Há dois anos o Brasil ocupava o primeiro lugar no índice de crimes por estupro. Colômbia e Venezuela vinham em seguida. Os últimos números levantados indicam que 143 mil casos de estupros por ano são registrados no país. Além daqueles que não são denunciados – e são muitos mais.
Até uma década e pouco atrás  o estupro matava mais, na região, do que o câncer, os acidentes de carro e a malária.
Compreende-se um dos motivos pelos quais (talvez) A teta assustada tenha sido um forte sucesso lá fora.  Tons de realismo mágico estão impregnados na narrativa de Fausta e no filme de Claudia Llosa. Mas aqui, milhares de mulheres e de meninas sabem que o estupro e a humilhação podem estar à espreita, no  cotidiano de um país que, vergonhosamente, exalta o machismo. Para elas não há mágica. É só mesmo realismo.