quinta-feira, 16 de abril de 2015

Lava Jato: O espetáculo continua

na Carta Maior

Mais uma vez, vemos um julgamento se dar inteiramente na imprensa. Qual o preço dessa irresponsável promiscuidade entre Ministério Público e mídia?

Miguel do Rosário
Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Agora entendo porque os procuradores da Lava Jato e o juiz Sergio Moro “pediram à mídia” para pressionar as instâncias superiores do Judiciário.


O espetáculo não pode parar. E tem de ser rápido, para confundir a opinião pública, produzindo um clima de caos.


A mídia sempre gostou de coisas rápidas e confusas, que ela controla em função das enormes equipes que só ela consegue mobilizar para manter o controle sobre esse tipo de narrativa.


As redes sociais, apesar de grandes e múltiplas (e justamente por serem tão múltiplas), e a sociedade civil, reagem atônitas e lentamente a esse tipo de escândalo. Não tendo um comando centralizado, precisam digerir as acusações, tentando separar o que é sério, o que é exagerado, o que é falso, o que é misturado indevidamente.


Depois de paralisarem as construtoras e firmas de engenharia que prestam serviços a Petrobrás, a “força-tarefa” formada por mídia, Moro e procuradores agora avançam sobre as maiores produtoras de vídeo do país.


E aí vazam, sem critério nenhum, planilhas de pagamentos, sigilos bancários, fiscais e telefônicos.


Moro mandou quebrar o sigilo de todos, mandou prender um monte de gente provisoriamente.


No Estadão, destaca-se o pagamento de R$ 200 mil da JBS à uma empresa dos irmãos Vargas. Uma coisa que não tem nada a ver com a Lava Jato.


Escondida no último parágrafo da matéria, encontramos a informação da JBS, afirmando que o depósito se deu por serviços prestados e a declaração do próprio juiz, que admite não ser “possível afirmar por ora que [os depósitos] eram destituídos de causa lícita”.


Não interessa. O espetáculo está dado.


Culpado ou não culpado, a condenação já está feita na mídia.


Mais uma vez, vemos um julgamento se dar inteiramente na imprensa.


Juiz comenta casos na mídia, sem respeitar minimamente a discrição que deveria guardar sobre o caso, e age notoriamente ao lado da acusação, sem demonstrar a mínima preocupação em salvaguardar direitos.


Quebrando sigilos indiscriminadamente, claro que o juiz e os procuradores encontrarão irregularidades.


Descobrirão mil tretas, muitas sem nenhuma ligação entre si.


Tretas que, ao invés de serem investigadas separadamente, são usadas para formar a teoria política que interessa à mídia naquele momento.


Os valores de notas fiscais e serviços prestados (ou não) são lançados na mídia com estardalhaço, ao lado de teses de acusação ainda sem nenhuma base concreta.


Empresários conhecidos na praça, que nunca demonstraram qualquer contrariedade em prestar depoimentos, recebem mandados de “condução coercitiva” para depor na PF. Isso quando não são presos sumariamente, sem ao menos acesso às acusações que se lhes fazem.


E tudo feito sob os holofotes histéricos da mesma imprensa que passou a convocar “manifestações de rua”.

Em outro momento, e por muito menos, quando a mídia não tinha domínio da narrativa, e, sobretudo, quando as operações não eram conduzidas por um juiz “premiado pela Globo”, ergueu-se na imprensa um grande clamor contra o Estado Policial.
 
Gilmar Mendes, ministro do STF, dava entrevistas diárias contra isso, e até hoje não se explica o “grampo sem áudio”, uma acusação feita por Mendes e Demóstenes Torres que serviu de base para demitir o então diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda.
 
Hoje a mídia assumiu o controle. O procurador que chefia a força-tarefa da Lava Jato vai almoçar na Folha. Outro afirma que a mídia precisa pressionar o Judiciário a julgar a toque de caixa.
 
Qual o preço dessa irresponsável promiscuidade entre Ministério Público e mídia?
 
Qual o objetivo?
 
Montar conspiratas políticas e espetáculo midiáticos?
 
Subsidiar uma narrativa cuja sinopse já foi previamente escrita?
 
A luta contra a corrupção, naturalmente, é essencial, mas o que dizer de operações anticorrupção manipuladas politicamente, feitas sem critério, investigando indiscriminadamente, quebrando sigilos de maneira generalizada, prendendo indivíduos muito antes de qualquer condenação?
 
Pior, prendendo gente que não representa nenhum perigo à sociedade, nem oferece qualquer obstáculo às investigações, apenas para oferecer um sacrifício humano à malta excitada?
 
Enquanto isso, na Operação Zelotes, o mesmo Judiciário nega sistematicamente todos pedidos de prisão temporária. Não se prende ninguém sequer por um dia. Já na Lava Jato, prisões “temporárias” duram seis meses.
 
Na força-tarefa criada pelo Ministério Público, para cuidar da operação Zelotes, os procuradores não podem se dedicar com exclusividade.
 
O juiz da Zelotes não ganha prêmio da Globo.
 
Sergio Moro já escreveu que admira a Operações Mãos Limpas, que resultou numa Itália destruída politicamente, com partidos criminalizados, um país entregue à extrema-direita de Berlusconi, que controlava a mídia e, portanto, conseguiu se manter incólume das acusações.
 
Uma Itália que emergiu ainda mais corrupta do que antes.
 
Entretanto, ninguém lembra do mais importante: os traumas provocados pelos desmandos da Mãos Limpas fizeram a Itália debater e aprovar uma lei que responsabiliza juízes e promotores que extrapolam suas funções.
 
Por que a nossa imprensa não discute isso na opinião pública? O Cafezinho já escreveu sobre o tema, no post intitulado “Os perigos da delação premiada“.
 
O Conjur, site especializado em debates jurídicos, também alertou, recentemente, para o perigo dessas delações premiadas.
 
A entrega do prêmio Faz Diferença, da Globo, ao juiz Sergio Moro, já indicou que o caminho a seguir deve ser o mesmo das Mãos Limpas.
 
Não deveríamos ao menos aprender com os erros cometidos pelos italianos, debatendo o que eles fazem hoje para se salvaguardarem contra histerias judiciais?
 
Afinal, quem vigia os vigias?


Da Casa Grande aos apartamentos

no Portal Outras Palavras
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Crônica sobre as empregadas domésticas — que ainda entram pela porta de serviço, usam aventais de babados, são quase todas negras e exercem a profissão pior remunerada do país 
Saber o tempero que mais agrada, a dosagem do açúcar ou a preferência por adoçante. O jeito que se ajeita a cama, com ou sem travesseiro. Carregar a mochila da criança, segurar nos braços para atravessar a rua, empurrar o carrinho, curvar o corpo em forma de amparo durante a aprendizagem do caminhar. O cuidado com o quintal, com o cardápio, a feira, o mercado da semana, do mês, da ceia de Natal. Lavar a roupa, estender no varal, passar no dia seguinte. Segurar as sacolas no shopping.
Vão energia, carinho, amor e atenção. Deixam marcas nos joelhos, nas pernas, braços e no olhar. A porta de serviço existe até hoje. A cozinha ainda é o território permitido e os anúncios pedindo mulheres que aceitem “dormir no trabalho e tenham boas indicações” continuam. O quartinho permanece nos fundos, pequeno, estreito. Lá tem a cama, o armário e um banheiro. Normalmente, depois que casa virou apartamento, também é o lugar da máquina de lavar e do varal de teto.
Às vezes usando uniforme totalmente branco, outras vezes azul, bege ou preto com babadinhos. A cultura do trabalho doméstico (mal) remunerado no Brasil representa um conjunto de explorações que, historicamente, obriga mulheres pobres e – em sua maioria – negras a iniciarem a vida ativa do trabalho muito cedo, ainda na infância e na juventude.
Estudo publicado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), em agosto de 2013, revela que o trabalho doméstico abriga uma das maiores categorias de trabalhadores e também o menos valorizada: é a ocupação que apresenta o menor rendimento médio mensal (R$ 509,00) quando comparada a todos os grupos de atividades. A quantia representa 39% da média recebida entre os ocupados, em 2011.
Predominante feminina, a maioria são mulheres negras. Entre 2004 e 2011, a proporção de mulheres negras cresceu de 56,9% para 61% e para as mulheres não negras houve um decréscimo de 4,1%, representando um total de 39% entre as trabalhadoras.
O acúmulo de atividades é corriqueiro e, na maioria das vezes, a nomenclatura não significa limitação da função. Aliás, não mesmo. Nos anúncios: “procura-se babá que faça outras tarefas na casa”. Então, para tornar o termo amplo, definem como empregada doméstica ou “a moça que trabalha lá em casa”.
Em pleno processo de regulamentação total da PEC das Domésticas, quando a grande mídia prioriza discutir quanto o patrão perderá em cifras e não como fazer para se fazer cumprir a lei, refletiremos sobre a rotina, histórias e o que pensam as mulheres que levam as casas de quem ganha milhões nas costas e nas mãos. Mulheres como nossas mães. No mês da mulher, elas serão nossas homenageadas.
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A Ocupação dos Espaços Públicos Pelo Grande Capital

por José Gilbert Arruda Martins
O aeroporto de Brasília, nunca teve estacionamento público, mas agora, a infraamérica, que ganhou a licitação na concessão, resolveu exagerar, está ocupando todo o espaço na frente do aeroporto com estacionamento pago, cerca de R$ 15 por alguns minutos.


Beleza, que o dono do carrão não tem problemas, mas o aeroporto também é frequentando, e agora mais do que nunca, por pessoas mais simples com carros menores e pouco dinheiro no bolso, não dá para pagar os R$ 15.

Não tem jeito, todo dia está lá a PM trabalhando para a Infraamérica. Cheguei até a reclamar, mas o policial me alertou que aquilo era para ajudar a fluir o trânsito e, "me passa seus documentos e os documentos do veículo" com uma delicadeza de elefante.




É a ocupação dos espaços públicos pelo grande capital. Nas cidades grandes isso virou um absurdo, "onde tem dinheiro o capital vem para ganhar e engordar ainda mais".

Em Brasília, quem não quer ou não pode pagar é obrigado ficar circulando, o que acaba ficando mais caro, pois gasta com combustível.

É melhor para e ser multado? É melhor estacionar e pagar os R$ 15? É melhor voltar a andar de ônibus? Na rodoviária, o estacionamento também é privatizado.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Teus Filhos e Filhas Escravos, Já Imaginou?

por José Gilbert Arruda Martins
A escravidão acabou no Brasil em 1943 com a criação da Consolidação das Leis Trabalhistas. Era um governo trabalhista, criando o primeiro conjunto de leis de proteção e amparo à Classe Trabalhadora.

2015; século XXI, e a Câmara dos Deputados resolveu incorporar as energias capetianas (de capeta mesmo), e, aproveitando a conjuntura favorável, aprovar o texto básico PL 4330 que amplia de forma perigosa a terceirização no Brasil.

É a continuação do desmonte do Estado iniciado na década de 1990 com FHC.

FHC, como todos sabem, venceu as eleições e, durante os dois mandatos, o segundo, inclusive, foi fruto da compra de votos para mudar a Constituição, proporcionou o maior e mais espetacular desmonte de um Estado já feito na história.

Agora, com a votação e aprovação do texto básico da PL 4330, os grupos empresariais, já gordos de lucros, desejam fechar o círculo.

O placar de 324 a 127 a favor da terceirização da mão de obra, é significativo e assombroso. A bancada de deputados federais de Brasília, apenas a Érika Kokai do PT-DF votou contra, os demais deputados - Rôney Nemer (PMDB), Alberto Fraga (DEM), Augusto Carvalho (SD) Izalci (PSDB), Rogério Rosso (PSD) e Ronaldo Fonseca (PROS) votaram a favor da terceirização contra os trabalhadores.

Na votação, já era mais ou menos esperado, que a bancada, que é muito conservadora e elitista, votasse contra os trabalhadores, no entanto, o voto do deputado Augusto Carvalho, um cara de origem sindical, deixou perplexo a todos os trabalhadores e trabalhadoras, foi uma traição, segundo os dirigentes da CUT-DF.

Para forçar o Senado arquivar a PL 4330, hoje dia 15 de abril foi dia de luta em todo o país. Dia especial e fundamental.

Estivemos na Tomada da Rodoviária do Plano Piloto, milhares de trabalhadores, trabalhadoras e estudantes presentes na luta contra o PL 4330.

Divulgue o placar da votação na Câmara, mostre aos amigos com quem votou o deputado de Brasília.




Tia Amélia e seus amigos

no Portal Outras Palavras
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A titia fica sempre falando mal desse PT. Ela gosta mesmo é de outra sigla: PM. Até tirou foto com eles, na avenida, neste domingo
Por Deni Rubbo | Imagens: Jornalistas Livres
Domingo passado a tia Amélia foi na passeata daquela avenida grandona, cheio de prédios e anteninhas que tocam o céu, lá no centro de São Paulo. A tia Amélia, irmã do meu pai, frequenta muito lá em casa e vez por outra, quando está de bom humor – o que é raríssimo –, faz uns biscoitinhos deliciosos. Eu gosto tanto deles que já os como antes deles serem feitos. Sem ela saber, eu raspo aquela bacia em que ela cuidadosamente bate a massa, passo meus dedos e coloco na boca, mas depois de tanta felicidade sinto uma dorzinha de barriga.
A tia Amélia chegou toda alvoroçada em casa no domingo à tarde. A gente estava no quintal brincando, todo sujo de terra, lambuzado de geleia, e a tia Amélia chegou gritando alguma coisa de “viva a intervenção militar” de não se o quê, todinha fantasiada, pintada de verde e amarelo, tinha corneta, bandeira e tudo mais.
Eu fiquei muito contente da tia Amélia chegar assim toda maquiada porque provavelmente era Copa do Mundo, e mamãe sempre fazia umas comidas especiais e o tio Vinicius, que tinha um barriga enorme, sempre ia assistir aos jogos lá em casa e me dava sempre um presente legal. Mas pelo que eu me lembro, no último jogo da Copa (papai disse que a Copa é de quatro em quatro anos, será que já passou tudo isso?) o Brasil não tinha ido muito bem e todo mundo ficou chateado, menos o papai que não parava de rir. E querem saber uma coisa, eu gosto quando o papai cai na gargalhada. E era tão contagiante, como se ele tivesse fazendo cosquinha nos meus pés – porque eu tenho cócegas nos pés, mas é segredo – que eu comecei a rir também. A titia não gostou nada disso, ficou mais séria do que já é e disse que era tudo culpa do PT.
Aliás, a titia sempre fica falando mal desse tal de PT. Se a torta queima é culpa do PT. Se ela vai no cabelereiro e o corte não fica como desejado, ela fala que é culpa do PT. Ela tropeçou na calçada lá nos Jardins e disse que era culpa do PT. Mas a titia Amélia gosta mesmo de outra sigla: a PM. Sempre fica falando bem deles. Até tirou uma foto com eles no domingo passado. PM sim, PT não. Ninguém me explica o que são essas duas coisas, porque dizem que eu não vou entender, já que sou uma menina de oito anos.

Mas eu não gosto da PM. Vou dizer o porquê. Um dia, passeando com meu pai e minha mãe, a gente viu um PM, que é um homem todo fantasiado de cinza, que gritou com um menino da minha idade e jogou spray de pimenta na cara dele. Ele começou a chorar e a mãe dele ficou triste. Papai ficou tão vermelho, que nem quando escuta a titia falando. A tia Amélia disse que eram bandidos e o papai me disse que estavam apenas querendo caixas para fazer uma casinha. Eu sempre brinco de casinha de papelão no quintal de casa e acho que todos têm o direito de brincar do mesmo jeito.
Parece que a titia é bem informada: tá sempre lendo revistas coloridas, com fotos mulheres e homens bonitos. Tem um monte de fofocas de pessoas famosas. Para completar sua vasta cultura, a titia também assiste um monte de novelas na televisão. Disse que elas retratam a “realidade da vida humana”.

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A titia Amélia também tem umas fotos de homens na sua casa que, segundo ela, são “pessoas de bem”: Maluf, Aécio e Alckmin. Esse tal de governador Alckmin disse outro dia que todo ano os professores fazem sempre a mesma novela. Engraçado, porque na passeata de domingo a PM é boazinha com as pessoas pedindo “mais educação”, mas é toda desconfiada e agressiva com aquele monte de professores que anda na rua pedindo mais educação de qualidade. Acho que a PM gosta de gente fantasiada de Copa do Mundo.
A titia Laura é minha professora lá na escola que não estou tendo aula. Ela não é minha “tia” de verdade, mas eu não consigo chamar de “professora” porque é um nome comprido e eu enrolo minha língua para falar. Ela deve estar na passeata que a PM fica brava e desconfiada, aquela que os titios e titias vão sem fantasias. Eu gosto dela porque tem um sorriso lindo e conta histórias que a gente fica muito feliz. Acho que ela é a maior professora do mundo. A tia Laura é uma super-heroína porque ela sim quer o bem para os alunos, para ela e para escola. Ela fala no microfone e todo mundo aplaude. A titia Laura disse que não é nem um pouco parecido com novela não termos aulas, como disse o governador com aquele nariz grande.
A tia Amélia diz que todos eles, governador, o tal de Aécio, não são “corruptos”. Que palavra mais engraçada. Ela me lembra outra palavra, carrapatos, não sei porque. Ah, prefiro ver eles como carrapatos, é mais divertido. Carrapto é um bichinho muito pequenenino que fica às vezes grudado no Noel, o nosso cachorro lá de casa. A gente passa um remédio e eles vão embora.
Vi na televisão um monte de imagens no domingo passado. Todos estavam fantasiados como a tia Amélia. E todos gostavam de carrapatos. Parecia que eu conhecia todos os milhões que estavam lá. Como se reproduzissem milhões de titias Amélias e milhões de titios Amélios, como carrapatos no meu cachorro. É melhor se livrar deles.

DeniRubbo

Deni Rubbo é doutorando em Sociologia pela USP e escreve sobre Cinema, Política, Sociedade e Comportamento para Outras Palavras

Pode a teoria marxista prever o fim de Game of Thrones?

no Portal da Revista Fórum
As elites estão em crise, as suas fontes de riqueza esgotadas, a sua civilização assaltada por fanáticos enlouquecidos do exterior – enquanto, no interior, as massas estão em revolta aberta. Não, não é a zona euro – é Westeros, o local mítico de Game of Thrones
Por Paul Mason, publicado no Guardian, traduzido por Esquerda.net
Foi JRR Tolkien, o pai da fantasia científica, que resumiu a atração de um género que se tornou, nos últimos 60 anos, um marco da cultura moderna: “um Mundo Secundário no qual tanto o autor e espectador podem entrar, para a satisfação dos seus sentidos enquanto estão lá dentro”.
Mas por que tantos desses mundos secundários assemelham-se ao feudalismo em crise? Desde Tolkien e CS Lewis, a criadores de mundos interestelares como Frank Herbert em Dune, e agora o próprio Game of Thrones, os mundos de fantasia mais bem-sucedidos não invocam apenas as armadilhas do feudalismo – reis, tortura e julgamento por combate – mas a própria crise do feudalismo.
Na moderna fantasia científica há sempre uma crise do sistema: tanto da ordem económica como das auras de poder – a magia – que delas emanam. Há, na teoria literária, até mesmo um termo técnico para esta crise: “thinning“. Na sua Encyclopaedia of Fantasy, John Clute e John Grant definem “thinning” como “a ameaça constante de declínio”, acompanhado de um luto omnipresente e sentido de injustiça no mundo.
Como Westeros prepara os seus abdominais tonificados no ginásio e depilados para a quinta temporada, o processo de “thinning” está no bom caminho. Existe a invasão do mundo espiritual a partir do norte gelado; há uma revolta de escravos por mar.
Mas há claramente também mais desgraça sistémica que paira sobre a economia de Westeros. A dominante família Lannister obteve a sua riqueza possuindo a maior parte das minas de ouro. A moeda de Westeros é trimetálica: há moedas de ouro, prata e cobre, sendo que o seu valor varia conforme o metal que contêm – e não depende de um banco central e da sua “promessa de pagar” como na vida real.
O problema é que, na quarta temporada, o mais importante dos Lannisters, Tywin, soltou uma bomba: as minas de ouro não produzem há três anos. Adicionalmente, os Lannister devem uma tonelada de dinheiro para algo chamado Banco de Ferro. “Todos nós vivemos na sua sombra”, diz Tywin, “mas nenhum de nós sabe disso. Não pode fugir deles, não pode enganá-los e não pode influenciá-los com desculpas. Se lhes deve dinheiro, e não quer ser destruído, paga-lhes”.
Se isto faz lembrar a Grécia e o Banco Central Europeu, é só porque o seu impasse atual replica a mudança de poder essencial que aconteceu no final do feudalismo: dívidas acumuladas no âmbito de um sistema de clientelismo corrupto, cujas fontes de riqueza secou, destruíram o sistema no final.
Se aplicarmos o materialismo histórico a Westeros, o enredo da temporada cinco e seis torna-se possível prever. O que aconteceu com o feudalismo, em que os reis se encontraram em dívida para com os banqueiros, é que – em primeiro lugar – eles tentaram resolver o problema com o poder destituído. Edward III, na vida real, prendeu os seus banqueiros italianos na Torre de Londres, até que estes renunciassem das suas dívidas.
Mas, eventualmente, o poder do comércio começou a esmagar o poder dos reis. O feudalismo deu lugar a um capitalismo baseado em comerciantes, banqueiros, pilhagem colonial e comércio de escravos. O dinheiro de papel surgiu, assim como um sistema bancário complexo para amenizar problemas como a sua mina de ouro que estava a secar.
Para que isso aconteça é necessário o Estado de Direito. É preciso que o poder dos reis se sujeite ao direito constitucional, e seja imposto um código moral às empresas, comércio e vida familiar. Mas isso não vai acontecer em Westeros, onde o estilo de vida da elite é sinónimo de estupro, pilhagem, mortes arbitrárias, tortura e sexo recreativo.
Então, do que Westeros necessita não é uma invasão de lobisomens do norte gelado, mas a chegada de um novo tipo de ser humano: eles devem vestir-se de preto, com golas de renda branca, rostos severos e uma aversão ao sexo e bebida. Numa palavra, Westeros precisa de capitalistas – como aqueles que desaprovaram puritanamente os retratos holandeses no século 17. E eles devem, como na República Holandesa e na guerra civil inglesa, iniciar uma revolução.
Mas isso não pode acontecer no mundo secundário da fantasia científica. O processo de “thinning”nunca pode terminar; deve ser perpétuo para que o conceito do drama funcione.
Há uma razão para que a fantasia científica adote o conceito de um feudalismo que está sempre em crise, mas nunca é derrubado. Ele forma a paisagem ideal para dramatizar os desejos secretos dos povos que vivem sob o capitalismo moderno.
A geração de Tolkien – marcado pela guerra em escala industrial – ansiava os valores de heroísmo e misericórdia associados ao combate cara-a-cara do passado. Para William Morris, cujo romance socialista utópico News From Nowhere desenrola-se num Hammersmith quase medieval, a aspiração era de perícia, arte, belos objetos individuais – uma fuga da brutalidade da produção industrial em massa.
Historiadores sociais futuros, olhando para trás sobre a popularidade de Game of Thrones, não terão muita dificuldade em decifrar os desejos íntimos da geração viciada na série. Eles são: “todos os anteriores” mais sexo com vários parceiros.
Presos num sistema baseado na racionalidade econômica, todos nós queremos o poder de ser algo maior do que o limite do nosso cartão de crédito, ou a nossa função profissional. Ninguém fica em casa a assistir a estes dramas imaginando ser um mero escravo, camponês ou empregada de bar: somos convidados a fantasiar que somos personagens como Daenerys Targaryen, uma bela mulher com dragões domesticados, ou Jon Snow, o bonitão com a barba por fazer que ninguém consegue matar.
Cabe à psicologia social explicar a popularidade duradoura da fantasia, e a sua evolução parapornografia e violência sádica. Tudo o que economia política pode fazer é apontar as contradições e assinalar onde elas conduzem.
Então, em algum momento na temporada cinco ou seis, eu prevejo que os Lannisters vão cair, como aconteceu aos feudalistas, a não ser que descubram um território até então desconhecido, cheio de ouro e de pessoas que se exterminem facilmente, assim como a monarquia espanhola fez durante a crise do feudalismo no mundo real.
Foi sempre um mistério saber se há uma terra a oeste, através do mar de Westeros. A minha suspeita é: tem de haver, e alguém vai ser em breve destacado para encontrá-la.
Foto: Divulgação

Dilma a blogueiros: “Não dou entrevista pra Veja”

no Diário do Centro do Mundo
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Da fórum:
A presidenta Dilma Rousseff concedeu, na manhã desta terça-feira (14), entrevista de aproximadamente uma hora e meia a seis blogueiros. Estiveram presentes na coletiva Altamiro Borges, do Centro Barão de Itararé; Cynara Menezes, do Socialista Morena; Luis Nassif, do Jornal GGN; Maria Inês Nassif, da Carta Maior; Paulo Moreira Leite, do Brasil 247, e Renato Rovai, do Blog do Rovai e revista Fórum.
Entre os temas tratados, a presidenta afirmou que anuncia ainda hoje o nome do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), escolhido para a vaga de Joaquim Barbosa. Ela fez questão de falar a respeito da diminuição da maioridade penal e destacou que uma ínfima minoria de adolescentes presos se envolveram em delitos de morte, defendendo o agravamento da pena do adulto que utilizar o menor em crimes.
Em relação à regulação econômica da mídia, Dilma afirmou que o momento é ruim para se discutir o tema, por conta da necessidade de se fazer esse debate no Congresso Nacional, e, sobre o acordo com o Facebook, afirmou que “não assinou nada”. O tema vai ser discutido em junho, quando o presidente da companhia Marck Zuckerberg vier visitar o país. Ela garantiu que chamará o movimento social da internet livre pra discutir o projeto.
Além da entrevista, Dilma conversou por mais 40 minutos informalmente com os blogueiros, e se mostrou bastante tranquila em relação à crise política. Neste momento, disse, quando questionada sobre por que não fazia como o presidente dos EUA Barack Obama, que não dá entrevistas para a Fox News: “Mas eu não dou entrevista pra Veja”.
Esta a quarta entrevista concedida pela presidenta nas últimas semanas. Ela falou ainda à agência de notícias Bloomberg, ao jornal China Business News e à rede norte-americana CNN. Em instantes, confira a íntegra da entrevista, que será colocada ao longo da tarde no portal da revista Fórum.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Pesquisa expõe a indigência política dos coxinhas!

no Conversa Afiada
O ansioso blogueiro está comovido !!!
A partir do Viomundo:

MANIFESTANTES DO 12 DE ABRIL TÊM GRANDE CONFIANÇA EM SHEHERAZADE, ACREDITAM QUE LULINHA É SÓCIO DA FRIBOI E QUE PT QUER COMUNISMO















Da Redação

Uma pesquisa coordenada pelos professores Pablo Ortellado, da Universidade de São Paulo, e Esther Solano, da Unifesp, revelou alguns dados relevantes sobre os manifestantes que participaram do protesto pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff no 12 de abril na avenida Paulista.

A pesquisa ouviu 571 pessoas maiores de 16 anos de idade.

Os quadros acima mostram que a maioria acredita que o Partido dos Trabalhadores quer implantar um regime comunista no Brasil, que o filho de Lula é sócio do frigorífico Friboi, que o Foro de São Paulo quer implantar uma ditadura bolivariana no País, que o Bolsa Família financia preguiçosos e que as cotas nas universidades geram mais racismo.

Cruze isso com os comentaristas mais confiáveis pelos entrevistados e você vai entender o motivo de tamanho analfabetismo político: Raquel Sheherazade, do SBT e da rádio Jovem Pan, é aquela na qual os entrevistados mais confiam, seguida de Reinaldo Azevedo e, pasmem, Paulo Henrique Amorim!

William Bonner bate José Luiz Datena, que por sua vez derrota por um pescoço o guru da extrema-direita brasileira, Olavo de Carvalho.

As frases acima, todas falsas, são frequentemente disseminadas pela direita nas redes sociais.

Dentre os políticos, os tucanos Geraldo Alckmin e Aécio Neves lideram, seguidos por Jair Bolsonaro.

A revista Veja, obviamente, é a que merece mais confiança dos entrevistados.

Na modesta opinião do Viomundo, tal estado de coisas se deve ao fracasso do PT e dos governos Lula e Dilma na adoção de políticas públicas para democratizar a mídia e na falta de regulação da mídia eletrônica. Ou seja, a grande maioria dos brasileiros continua consumindo lixo reprocessado nas redes sociais.



Leia também:

#ACEITADILMAVEZ: PANELAÇO É GLOBAL DERROTA 


ESTADÃO MANDA O JABOR EMBORA

Dilma indica Luiz Edson Fachin para preencher vaga no STF

no Rede Brasil Atual
Escolha teria sido facilitada após consultas do Palácio do Planalto ao presidente do Senado, Renan Calheiros, que se opunha ao nome do professor paranaense
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Fachin passou até mesmo pela aprovação do tucano Álvaro Dias, que manifestou apoio ao nome no início do mês

São Paulo – Depois do apoio, embora discreto, do presidente do Supremo Tribunal Federal (SFT), Ricardo Lewandowski, a presidenta Dilma Rousseff teria escolhido o professor da Universidade Federal do Paraná Luiz Edson Fachin para a vaga deixada pelo ex-presidente da corte Joaquim Barbosa, que se aposentou no ano passado.
Para a decisão final de Dilma, teriam sido decisivas as consultas do Palácio do Planalto ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que se opunha ao nome por considerar o jurista identificado com o PT e ter advogado para o MST. Renan teria sido convencido de que Fachin tem aceitação de boa parte dos ministros do STF, além de ter um perfil técnico, e não político.
Fachin recebeu o apoio até mesmo do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que, em nota no início do mês, declarou apoio ao professor: “O jurista paranaense, competente e suprapartidário, se indicado, valorizará a Suprema Corte do país”, afirmou Dias.
A indicação de Dilma depende do Senado. Antes de ser nomeado, o postulante passa por uma sabatina na Casa. Depois, precisa ser aprovado pelo plenário, em votação secreta. O jurista assumirá a vaga em meio a vários concorrentes renomados, inclusive ministros de tribunais superiores.
Fachin nasceu no Rio Grande do Sul, mas foi criado no Paraná desde os 2 anos. Tem 57anos e se formou em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1980. É mestre e doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, e pós-doutor no Canadá.
Também professor titular da UFPR e da PUC-PR, é considerado um dos principais nomes do Direito Privado Constitucional no país, com trabalhos usados para embasar decisões do próprio STF. Entre as primeiras pessoas que souberam da sua indicação, foi destacado de imediato a constatação de que a presidenta preferiu escolher um nome especializado em Direito Privado diante de uma grande predominância de especialistas em Direito Público na composição da mais alta Corte do país.
O jurista já havia sido cogitado para uma cadeira no Supremo anteriormente. Na primeira vez, em 2011, na vaga de Eros Grau, que acabou sendo ocupada por Luiz Fux. Em 2013, para a cadeira deixada por Carlos Ayres Britto, quando entrou Luis Roberto Barroso. Ele é sócio-fundador da banca Fachin Advogados Associados, criada em 2006.

CONTRA O RACISMO - Em evento sobre discriminação no trabalho, Glover pede união global contra efeitos da crise

no Rede Brasil Atual
Ator e ativista norte-americano, que participa do congresso dos metalúrgicos da CUT, lembra que crise global agrava precarização no trabalho e apoia protestos contra PL da terceirização
danny glover
Danny Glover mostra sintonia com os protestos de amanhã contra a legalização da terceirização
São Paulo – O ator norte-americano Danny Glover, conhecido por seu ativismo pelo direitos civis em seu país e no mundo – elogiou hoje (14) as lutas dos sindicatos brasileiros no processo de construção da democracia brasileira. “Os sindicatos brasileiros sempre estiveram à frente da luta em favor dos direitos civis. O Brasil ainda não se deu conta do seu potencial no mundo. Nós, norte-americanos, observamos o Brasil como um país transformador nas relações de trabalho. No que diz respeito às ações globais, precisamos nos unir neste momento de crise financeira mundial, que aumenta a precarização dos trabalhos. Por isso, nossa luta é permanente”, afirmou, durante evento que integra a programação do 9º Congresso Nacional dos Metalúrgicos da CUT. O congresso tem sua abertura oficial na noite desta terça-feira, com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e se estende até sexta-feira (17), em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo.
Glover foi um dos participantes do Seminário Internacional Impactos do Racismo no Mundo do Trabalho. A mesa foi coordenada pela secretária de Igualdade Racial da Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM-CUT), Christiane dos Santos, e teve também a participação do diretor de Política de Herança Cultural do Smithsonian Institute, James Counts Early, da vice-presidente da central União dos Trabalhadores Metalúrgicos da África do Sul, Christine Oliver, e do presidente da CNM-CUT, Paulo Cayres. Durante sua exposição, Danny Glover exibiu um cartaz contra o Projeto de Lei que permite a ampliação do uso de mão de obra em todas as atividades das empresas (PL 4.330) – em tramitação no Congresso e alvo de manifestações nesta quarta-feira (15).
O ator e ativista agradeceu o apoio da entidade na campanha de solidariedade aos trabalhadores na unidade da Nissan em Canton, Mississipi, que são proibidos de se sindicalizar. “A CNM-CUT nos deu um apoio incondicional nesta luta. E este apoio foi além, porque o Mississipi não é um lugar muito amistoso para os negros norte-americanos. Ainda não conseguimos a sindicalização, mas estamos avançando com a organização dos trabalhadores”, lembrou Glover, que também preside o Fórum TransAfrica – maior e mais antiga ONG dedicada aos direitos da comunidade afrodescendente.
A sindicalista sul-africana Christiane Oliver falou do processo de democratização na África do Sul e das desigualdades que ainda existem em seu país, mesmo após o fim do apartheid. “Achávamos que com o fim do apartheid nós iríamos ter liberdade econômica. Mas, infelizmente, o capitalismo é global, branco e monopolista. Os brancos na África ganham oito vezes mais do que os negros . E no caso da mulher, a desigualdade é ainda maior. A mulher negra ganha apenas 70% do salário do homem negro.”
James Early falou sobre a importância do movimento sindical brasileiro na abordagem do tema da igualdade racial no espaço de trabalho e na sociedade. “A luta contra o racismo é uma luta pela cidadania plena de todos os norte-americanos e os sindicatos estão participando desta luta. Não teremos uma democracia plena sem a participação do negro em espaços de poder em todos os países. Tenho certeza de que nos próximos 25 anos o Brasil será o país mais importante de toda a América. Por isso, precisamos trabalhar junto com sindicatos brasileiros desde já para colocar este tema como a principal bandeira de luta”, disse.

A hora e a vez da dromomania

Por Muniz Sodré no Observatório da Imprensa


A se julgar pelo que dizem políticos e imprensa, as ruas parecem estar-se impondo como sujeito da história nacional corrente. À direita ou à esquerda, na situação ou na oposição, é geral o sentimento bem expressado pelo petista José Guimarães, líder do governo na Câmara dos Deputados: “As ruas mostraram que querem mudança. Ou fazemos ou as ruas nos engolem”.
Ou, então, avalie-se o que disse um dos caciques do PMDB a propósito da transferência da articulação política do governo a Michel Temer: “Foi uma decisão muito arriscada. Nós vamos ficar com o cargo e a responsabilidade de resolver a crise. E quem vai ficar com as ruas? Não seremos nós”.
Já em junho de 2013, quando elas fizeram a sua irrupção na pasmaceira burocrática do espaço público, tivemos oportunidade de observar que, do ponto de vista das relações intersubjetivas, o espaço das ruas é estriado, sulcado, enrugado, quer dizer, não tem a lisura do traçado geométrico dos urbanistas, a não ser em cidades ultraplanejadas.
Aliás, quando se atenta para o étimo latino de “rua”, ela é, em princípio, uma ruga na paisagem. A palavra vem do latim “ruga” e expande-se por metáfora e metonímia. Metaforicamente, ganha o significado de “caminho ladeado de casas”; metonimicamente, séculos depois da metáfora, designa o conjunto dos habitantes da rua, especialmente o povo em suas virtualidades insurrecionais.
Pressão  retórica
Ruga na paisagem urbana, a rua detém potencialmente uma energia cinética capaz de impulsionar as massas. Em Massa e Poder, Elias Canetti fala de energia própria e de um estranho poder de atração: “Uma aparição tão enigmática quanto universal é a da massa que surge repentinamente onde antes não havia coisa alguma (…). Nada foi anunciado, nada era esperado. Repentinamente tudo está cheio de gente. De todos os lados pessoas começam a afluir como se todas as ruas tivessem uma única direção”.
Por um lado,  isso é festivo e auspicioso.  Tanto que para João do Rio, o grande cronista carioca do início do século passado, a rua tem alma e até mesmo uma musa: “É a musa que viceja nos becos e rebenta nas praças, entre o barulho da populaça e a ânsia de todas as nevroses, é a musa igualitária, a musa-povo, que desfaz os fatos mais graves em lundus e cançonetas, é a única sem pretensões porque se renova como a própria Vida”.
Por outro, entretanto, vale prestar atenção em que a história etimológica da palavra rua registra também uma equivalência entre ela e o “estar louco”. De fato, a rua é lugar de indeterminação, de inesperado, de risco. Bem o sabem os cronistas da Revolução Francesa, que avaliaram as consequências  da tomada das ruas de Paris pelas massas procedentes dos subúrbios e dos campos, diminuindo a distância entre o populacho e o centro do poder.
Historicamente, não são jurídicos apenas os aparatos instituídos pelo poder dirigente. Na Revolução, todas as estradas francesas tornaram-se nacionais em virtude de sua ocupação popular. Ali ganhava vigência uma velha divisa do Direito Romano: “Ubi pedes, ibi pátria”. Em outras palavras, a pátria acontece sob os pés da cidadania.
Evidentemente, outros são os tempos, velhas são as fórmulas que se invocam por pressão retórica. O fato, porém, é que as ruas, mais do que partidos ou movimentos sociais organizados, vêm fornecendo os padrões de avaliação da convulsão política. Assim é que o relator do projeto de terceirização na Câmara de Deputados disse ter achado muito graça da marcha convocada pela CUT, que reuniu apenas 400 pessoas em São Paulo. Outros tranquilizaram-se com ruas praticamente vazias em vários estados.
Agitação poular
Resta saber o que efetivamente dizem as ruas. Assim como parecem velhas e superadas as propostas de apaziguamento levadas a público por ministros, parece-nos também que começam a ficar gastas as invectivas do “fora isso!”, “fora Fulano!”
Tempos atrás, Paul Virilio, pensador francês que vem estabelecendo nexos entre cultura, política e velocidade, sugeriu a palavra “dromomania”, algo como “mania de movimento”, para designar a agitação popular nas ruas.
Não, a palavra não tem sentido pejorativo, mas suscita uma interrogação: estarão osdromômanos tomando o lugar da política?
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Muniz Sodré é jornalista e escritor, professor titular (aposentado) da Universidade Federal do Rio de Janeiro

RESISTÊNCIA - Movimento estudantil apoia jornada contra avanço de pautas conservadoras

por Sarah Fernandes no Rede Brasil Atual
Na quarta-feira (15) os estudantes participarão de atos contra PL da terceirização, e no dia seguinte se reunirão em Brasília para protestar contra a redução da maioridade penal
Ubes
Estudantes reivindicarão que a Câmara abra um diálogo sobre o projeto de lei de reforma do ensino médio

por José Gilbert Arruda Martins
É isso, a hora é de lutar.
Os estudantes têm uma força e criatividade incríveis, o momento é preocupante, as ondas conservadoras no Congresso engrossaram o caldo.
Vamos colocar água, vamos colocar a beleza do debate e da justiça nesse caldo maluco e irresponsável.
A PEC da Redução da Maioridade é um atraso do tamanho do Brasil.
O PL da Terceirização outro.
Só a juventude para colocar um basta nisso e levar para um debate mais aberto e democrático de temas tão urgentes.

RESISTÊNCIA

Movimento estudantil apoia jornada contra avanço de pautas conservadoras

Na quarta-feira (15) os estudantes participarão de atos contra PL da terceirização, e no dia seguinte se reunirão em Brasília para protestar contra a redução da maioridade penal
São Paulo – Quatro entidades do movimento estudantil preparam nesta semana uma jornada de luta contra o avanço de pautas conservadoras no Congresso Nacional. Na quarta-feira (15), os estudantes participarão de atos chamados por 21 movimentos sociais, partidos políticos, pastorais sociais e centrais sindicais contra o projeto de lei da terceirização (PL 4.330). Em São Paulo, a concentração será no Largo da Batata, na zona oeste da capital, às 17h. Ocorrerão mobilizações também no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza e Curitiba.
No dia seguinte, os militantes se reunirão em Brasília para protestar contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC 171), que prevê redução da maioridade penal, cujo texto-base foi aprovado no último dia 31.
“Estamos com as centrais sindicais porque somos os futuros trabalhadores do país e a terceirização é um grande problema. O terceirizado ganha menos que o efetivo. A terceirização vai diminuir direitos trabalhistas e precarizar as condições de trabalho. É uma medida para os empresários, que vão lucrar mais, não para o trabalhador”, afirma a presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Bárbara Bahia. Participarão também a União Nacional dos Estudantes (UNE), Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) e a União dos Estudantes do Distrito Federal (UEDF).
A CUT propõe que a quarta-feira seja um dia nacional de paralisações contra o PL 4.330. De acordo com a entidade, o projeto não melhora as condições de trabalho dos 12,7 milhões de terceirizados, amplia a possibilidade de estender esse modelo de contratação para a atividade-fim da empresa – o que hoje é proibido no Brasil –, fragmenta a representação sindical e legaliza a diferença de direitos entre efetivos e terceirizados.
Em dezembro de 2013, os trabalhadores terceirizados recebiam 24,7% a menos do que os contratados diretos, realizavam uma jornada semanal de três horas a mais, segundo o dossiê “Terceirização e Desenvolvimento: uma conta que não fecha”, lançado pela CUT em março. Além disso, eles são as maiores vítimas de acidentes de trabalho: só no setor elétrico morreram 3,4 vezes mais terceirizados do que os efetivos nas distribuidoras, geradoras e transmissoras da área de energia elétrica, segundo levantamento da Fundação Comitê de Gestão Empresarial (Coge).

Maioridade penal

Na quinta-feira, o foco das mobilizações será a redução da maioridade penal. Os atos se concentrarão em Brasília e devem reunir pelo menos 5 mil estudantes. “É um grande atraso nos direitos da juventude e uma medida ineficaz para reduzir a violência”, afirma Bárbara. A PEC 171 reduz de 18 para 16 anos a idade mínima para que uma pessoa que cometeu um delito seja encaminhada para o sistema carcerário tradicional. Foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e agora tramita em uma comissão especial.
Durante o ato, os estudantes também reivindicarão que a Câmara abra um diálogo mais efetivo sobre o projeto de lei de reforma do ensino médio (PL 6840/2013), que foi aprovado em comissão especial e agora será votado em plenário. “Queremos discutir sobre o conteúdo para garantir que o projeto contemple mais as demandas dos estudantes. Queremos uma reunião com a presidência da Casa”, diz a presidenta da Ubes.

Zelotes e a indignação seletiva contra a corrupção

na  Carta Capital
A hipocrisia de gritar contra os corruptos e não se importar com os crimes dos sonegadores é ruim para o País
Uma cifra de nada menos que 19 bilhões de reais tem aparecido de forma tímida em também tímidas e diminutas reportagens veiculadas sobre a Operação Zelotes da Polícia Federal. Embora esse vultoso montante seja quase quatro vezes o valor desviado no tão repercutido esquema do “petrolão” – estimado em cerca de 5 bilhões de reais pela própria Petrobras –, não tem produzido na grande mídia e em parte da opinião pública a mesma indignação manifestada em relação a outros casos de corrupção.
Os agentes da PF que integram a Zelotes desbarataram uma quadrilha especializada em anular e reverter junto ao Carf, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, multas bilionárias devidas por seus “clientes” por sonegação fiscal. Este teria tudo para ser de fato “o maior escândalo de corrupção da história do Brasil”, se sonegação fosse vista pelas nossas elites econômicas e por grande parcela da sociedade como algo escandaloso. Não é. E não é porque não convém que seja.
Ainda que sonegação fiscal seja crime e implique na subtração de recursos públicos que, tais quais os valores desviados nos “petrolões”, serviriam à melhoria de serviços essenciais de saúde, educação e saneamento, por exemplo, eles são aceitos como corrupção menor. Isso talvez decorra do fato de que o crime de corrupção no Brasil é geralmente atribuído ao agente público, aquele servidor distante, encastelado nas repartições, enquanto que a sonegação é amplamente disseminada entre os segmentos economicamente incluídos, sobretudo entre os mais ricos.
A impressão de que a sonegação é corrupção menor deriva também do grande privilégio de que gozam os sonegadores, cujos crimes, mesmo após denunciados, são passíveis de extinção de punibilidade, caso o acusado opte por liquidar ou até mesmo parcelar sua dívida tributária. Sim, não somente a dívida do contribuinte comum, mas também a dos grandes figurões do setor privado pode ser paga em suaves prestações, quando não protelada anos a fio. Ou seja, sonegar no Brasil não é perigoso, principalmente para as grandes corporações que, aliás, desfrutam de boa reputação e são geralmente apontadas como exemplo de eficiência e boa gestão.
Vale lembrar que, nos atos do dia 15 de março, 12 de abril e corriqueiramente nas redes sociais, muitos se manifestam – legitimamente, é preciso dizer – indignados porque os desmandos de agentes públicos estão sangrando recursos que poderiam ser empregados em hospitais, escolas, creches, estradas, entre tantas outras aplicações. Causa estranhamento, portanto, o seu silêncio em relação à sonegação, crime que se revela venal e tão mais oneroso aos cofres públicos. No campo ético, aliás, trata-se de crime idêntico ao peculato, já que ambos implicam apropriação indevida de dinheiro do Estado.
Ora, se os movimentos das ruas e das redes sociais se constituem para combater a corrupção de forma genérica, por que não se revoltam contra a sonegação? Não seria de se esperar que exigissem combate mais rígido, pela mudança das leis, à sonegação e ao sonegador? Ou será que são condescendentes com esta pauta porque, ao pedir maior punição para a sonegação, seriam traídos pelas próprias vozes? O grande mal desses dias não é a corrupção, em seu sentido amplo e irrestrito. O pior dos males é a indignação seletiva, essa hipocrisia tão íntima demonstrada por setores da nossa sociedade.