quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O grande adversário de Lula - Por Rui Abreu


São Paulo, 4 de Fevereiro de 2026


Com a devida distância da realidade e a dez meses das eleições, as

pesquisas vão apresentando um provável quadro de reeleição presidencial

no Brasil. A imagem da presidência foi se recuperando na segunda metade

do ano passado após alguns movimentos erráticos do neofascismo nacional

e internacional. Pedidos de sansões, tarifas, tentativa do congresso blindar

os crimes dos ricos e ataques à soberania foram fortalecendo o governo

mesmo num quadro de precariedade econômica para a esmagadora maioria

das famílias brasileiras que a isenção de rendimentos até cinco mil reais

pretende mitigar. Sucessivos nomes são colocados em disputa com Lula e

todos apresentam tendências de voto inferiores, tendo o presidente mais ou

menos vantagem em todos os cenários.

Neste último ano de mandato em que são logicamente esperadas as

melhores medidas da governação e com o bolsonarismo atravessando uma

crise de sucessão, será de esperar uma reeleição menos apertada que a

eleição? Lula não tem adversário à altura?

Direita e extrema direita vêm ensaiando diversas candidaturas

presidenciais permitindo vários governadores se perfilarem perante o grande

capital como potenciais representantes de seus interesses. De fenômenos

populistas a oportunistas eleitos na esteira de Bolsonaro passando por

agrofascistas, vários nomes são apresentados e consultados à sociedade e a

resposta popular parece não deixar margem para candidatos de direita sem

a chancela do bolsonarismo. A potencial candidatura de Tarcísio de Freitas é

o caso mais visível e vem oscilando entre a emancipação do carioca em

relação à família Bolsonaro e a sua aceitação como autêntico representante

do ideário neofascista. Com a pré candidatura de Flávio Bolsonaro o instinto

de sobrevivência parece se impôr e Tarcísio acalma sua ambição num

quadro de reeleição fácil em São Paulo. 2030 é já ali.

Flávio Bolsonaro parece assumir a tarefa de reagrupar em seu torno a

liderança da oposição, tarefa dificultada pelos sucessivos movimentos

erráticos de seu irmão Eduardo que vivendo nos EUA conseguiu criar mais

dano à extrema direita que o governo e a esquerda juntos. A imposição da

vontade da família Bolsonaro nas candidaturas de Outubro de 2026 tem

trazido muitas contradições na extrema direita envolvendo caciques locais e

digitais. Os lugares a disputar para o senado em Santa Catarina e até a

candidatura de Flávio tem despontado oposição interna, sendo Michelle


Bolsonaro uma das figuras principais nessa disputa com os filhos de

Bolsonaro. Mas o ex presidente parece já ter decidido e serão seus filhos a

carregar a chama neofascista na contenda eleitoral e, respeitando a tradição,

quem não estiver de acordo será alvo a abater.

Entretanto a direita do “neoliberalismo tradicional” mantém sua

aspiração de candidatura própria, afinal o bolsonarismo ainda não aprendeu

a comer de garfo e faca e, mais importante, tinha um plano de assassinato

de dois dos seus. Mas o neoliberalismo tem muitas dificuldades em ganhar

eleições só com seu discurso. Embora tenha incutido valores na sociedade,

há muito que as teses neoliberais têm dificuldade em penetrar numa classe

trabalhadora esgotada de uma economia que funciona contra si. Não por

acaso o neofascismo vai assumindo o papel de frente na defesa dos

interesses dos bilionários, desviando para a agenda de costumes o foco

político, escondendo de forma mais eficaz a contradição entre o Capital e o

Trabalho.

No lavar das cestas será na proposta de domínio social que estes

interesses se encontram, garantindo lucros cada vez maiores para o grande

capital enquanto submete a população trabalhadora à agenda reacionária de

domínio ideológico neofascista. Figura maior desse encontro é o ex Ministro

da Fazenda Paulo Guedes que até hoje nem investigado foi pelos muitos

crimes econômicos cometidos sobre a população brasileira. É um encontro

de vontades das elites, com judiciário, com tudo. Um encontro que para já

parece ser Flávio Bolsonaro a estabelecer num provável segundo turno das

eleições presidenciais, podendo o primeiro turno ser povoado de

candidaturas de direita que mobilizará mais o seu campo político. A

fragmentação de candidatos à direita potenciará mais a votação no segundo

turno em torno do seu fio condutor: o anti petismo, o voto anti esquerda.

O governo parece querer jogar parado confiando nalgumas medidas

com apoio popular deixadas para o último ano de mandato e nos dados

econômicos. Com taxa de ocupação alta e com o crescimento econômico

estável, Lula parece confiar na economia para a sua reeleição. Pena é que

estes indicadores não se transportam para a vida das famílias trabalhadoras.

Uma economia que é construída em cima de baixos salários e precariedade

não traz satisfação popular. O social liberalismo já devia ter aprendido que as

políticas neoliberais derrotam governos. Bolsonaro, Trump, Biden são alguns

exemplos recentes da derrota da austeridade nas urnas. Biden chegou a ter

taxas de desocupação históricas atingindo baixos níveis só vistos no pós

segunda grande guerra. Mas ocupação não é emprego com perspetivas de

carreira, salário valorizado e condições de trabalho dignas. E o povo já sabe

disso.

Para arriscar mais a posição do governo, o colete de forças orçamental

autoimposto vai criando muitas dificuldades de funcionamento do Estado. As


limitações que o arcabouço fiscal trouxe vão ser determinantes para as

eleições presidenciais. Sem investimento público de monta, acerto salarial

significativo e diminuição das prestações sociais do Estado será difícil a

classe trabalhadora se rever nesse projeto, podendo o arcabouço fiscal per si

derrotar Lula. A austeridade é a criptonita eleitoral também do social

liberalismo.

Também as medidas populares a aprovar neste ano eleitoral podem

estar colocadas em causa pela oposição no congresso e pela antecipação do

Capital. A tão esperada medida de alteração da escala de trabalho 6x1 pode

estar a ser ultrapassada pelas decisões judiciais, em particular a

Peugeotização que tramita no STF que promete driblar um conjunto de

direitos da classe trabalhadora, inclusive a alteração da escala. O grupo de

distribuição do interior paulista Savegnago já anunciou o início da escala 5x2

a partir de Fevereiro em todas as suas 65 unidades. O Capital antecipa-se

contando para isso com seu mais ágil serviçal, o judiciário.

Com a importância estratégica que o Brasil tem será de esperar que o

império mais uma vez tente influenciar as eleições de 2026. Perante a sede

imperialista de Trump, o palácio do planalto parece apostar na entrega prévia

de recursos ao império a fim de apaziguar sua gula territorial, um gênero de

entreguismo preventivo. Tática desajustada para a fase de hiperimperialismo

que a casa branca vem desenvolvendo, prevendo-se a interferência das

Bigtech na tentativa de influenciar a disputa eleitoral, pendendo o jogo para o

neofascismo. Cenários de golpe também não são desconsideráveis.

É este quadro de disputa intensa que requere uma candidatura à

esquerda de Lula. Ao contrário do que o senso comum possa indicar, a

fragmentação de candidaturas à esquerda potencializaria o voto de esquerda

e diminuiria as chances de vitória do neofascismo. A esquerda está

descrente do projeto de Lula que é mais ou menos a continuação da política

surgida do golpe de 2016. A política de juros muito altos, a legislação

trabalhista de Temer e a consolidação do Brasil como fazenda do mundo

com seus custos sociais e ambientais tem trazido o governo Lula 3 a um

descrédito na esquerda que pode levar a uma desmobilização eleitoral. Uma

candidatura de esquerda dinamizaria esse campo político e, apesar do

governo ser ruim, poderia ser uma alavancagem na votação antifascista.

Mesmo sabendo que as políticas neoliberais são a pavimentação do

descrédito do sistema e que só o neofascismo tem sabido capitalizar por

ausência de projetos de esquerda, Lula não é neofascista e no segundo

turno a responsabilidade política indica o voto nele.

Urge ativar uma agenda de esquerda na sociedade brasileira que

dispute politicamente com o grande Capital a mente e alma da classe

trabalhadora. As eleições de 2026 serão muito apertadas e o arcabouço

fiscal pode derrotar Lula. Mas mesmo que ganhe, a herança política


ancorada no neoliberalismo trará grandes desafios à esquerda e à classe

trabalhadora no pós Lula, estando abertas as portas para o neofascismo

governar de forma duradoura se não houver uma alternativa clara de

esquerda a ebulir na sociedade brasileira.


Rui Abreu

Ativista comunista