terça-feira, 18 de julho de 2017

Por que Moro condenou Lula

no GGN

Por José Gilbert Arruda Martins

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Foto: Pedro Olveira/Alep



Por que Moro condenou Lula
 
Por José Gilbert Arruda Martins
 
“Sejamos o pesadelo dos que querem roubar nossos sonhos”. É uma tremenda responsabilidade abrir este ou qualquer outro texto usando palavras do guerrilheiro argentino Che Guevara, mas o momento político brasileiro exige a ousadia. 
 
Como podemos ser o pesadelo dos caras que estão roubando sonhos de milhões de trabalhadores e trabalhadoras do país com apenas marchas, passeatas, acampamentos, discursos e reuniões?
 
Comícios, marchas, panfletagens, caminhadas, passeatas etc., parecem não surtir o menor efeito sobre a voracidade dos rentistas daqui e de fora. Do impedimento até hoje, mesmo com todas as ilegalidades cometidas pelos golpistas, nada, absolutamente nada, do que a classe trabalhadora e os movimentos sociais fizeram nas ruas e praças desse país, parece impedir o desmonte total de todo o ensaio de Estado do Bem-estar Social que existia desde 1943.
 
E, para dar continuidade ao golpe, as elites e a grande mídia, com a colaboração do judiciário na figura STF e do senhor Moro, condenaram Luís Inácio Lula da Silva em uma ação cheias de erros e absurdamente partidária. Incluo o STF porque a suprema corte se mostra incapaz de frear as ações partidárias do juiz do Paraná. 
 
Nesse contexto, precisamos pensar que o juiz de Curitiba, que se transformou em herói de parte da classe média e dos ricos do Brasil, condenou o ex-presidente Lula por várias razões.
 
Moro fez o que fez porque não temos mais coragem de lutar por nossos sonhos, somos um bando de assustados líderes sindicais e militantes teleguiados pelo consumo e pela grande mídia defensora das classes ricas. Temos medo do confronto. Somos incapazes de ir além da marcha e dos discursos fáceis.
 
Essa condenação absurda, sem nenhuma base jurídica séria, não existiria se tivéssemos a companhia de um Zumbi dos Palmares, o alagoano que foi o principal representante da resistência negra à escravidão na época do Brasil Colonial. Foi líder do Quilombo dos Palmares, comunidade livre formada por escravos fugitivos dos engenhos, índios e brancos pobres expulsos das fazendas.
 
Moro não teria a petulância de condenar Lula se tivéssemos entre nós uma Bárbara Alencar, matriarca, centro da organização da rebelião da família, conspiradora, escritora e avó do escritor José de Alencar, nascida em Exu, interior de Pernambuco, em 1760. 
 
Uma das mulheres de quem se tem notícias a envolver-se na revolução de 1817, Bárbara participou de várias revoltas, organizou-as e fez de sua casa um lugar de encontros.
 
A “republiqueta” de Curitiba não colocaria a cabeça de fora se tivéssemos uma Maria Quitéria de Jesus que lutou nos batalhões nacionalistas nas guerras de independência e não deve ser vista como mais uma exceção em meio a mulheres inativas e silenciosas. Conta-se que comandou um batalhão de mulheres. Nascida no dia 27 de julho de 1792 na Bahia, ainda criança assumiu o comando da casa e a criação dos dois irmãos mais novos. Mulher bonita, altiva e de traços marcantes, Maria Quitéria montava, caçava e manejava armas de fogo. Tornou-se soldado em 1822, quando o Recôncavo Baiano lutava contra os portugueses a favor da consolidação da independência do Brasil.
 
Lula está sendo perseguido há mais de uma década porque não temos mais as lideranças negras muçulmanas da revolta dos Malês da Bahia de 1835: Ahuna, Pacífico Licutã, Nicobé, Dassalu e Gustard.
 
Falta num momento como este, a figura de Anita Garibaldi, catarinense, que se unindo a Giuseppe Garibaldi, participa das lutas republicanas durante a Guerra dos Farrapos, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, e posteriormente luta pela unificação da Itália, na Europa.
 
Moro condenou Lula por que não temos mais um Antônio Conselheiro, o líder sertanejo nordestino, que no século XIX lia a “Utopia” de Thomaz Morus e guiou, juntamente com seus companheiros e companheiras, a criação de uma sociedade igualitária em plena caatinga.
 
O juiz de primeira instância condenou Lula por que não temos mais um lampião e uma Maria Bonita, se tivéssemos, esse rapaz já estaria fora da magistratura brasileira pagando por seus erros.
 
Lula está sendo condenado por que não temos mais um João Cândido (o almirante negro) o líder popular que nos faz muita falta em tempos de medo e manifestações via redes sociais.
 
Falta a atuação da feminista anarquista Maria Lacerda de Moura que revela “a outra face do feminismo”. Ela questionou temas enfocados pelas mulheres da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF): a maternidade consciente, o amor livre e o direito da mulher ao amor.
 
O juiz de Curitiba, definitivamente, não teria a ousadia de condenar o maior líder popular da América Latina, se tivéssemos no cenário político brasileiro atual a presença de Francisco Julião Arruda de Paula, advogado, político e escritor brasileiro. Que nasceu no Engenho Boa Esperança, no agreste pernambucano. Advogado formado em 1939, em Recife, foi líder em 1955 das Ligas Camponesas, no Engenho Galileia.
 
Moro condenou Lula por que falta-nos em fim um Paulo Freire para nos dizer: “Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis de sua busca; pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela. Luta que, pela finalidade que lhe derem os oprimidos, será um ato de amor, com o qual se oporão ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando esta se revista da falsa generosidade referida.”
 
O poder e o glamour das elites sempre nos deslumbraram. E esse deslumbramento nos cegou, provocando uma espécie de indiferença, apatia moral, indolência, prostração, preguiça. De uma certa forma hospedamos e amamos o opressor, por isso mesmo, sentimos admiração e, muitas vezes, medo de quem historicamente nos oprimiu.
 
O pensamento das elites é muito influenciado por noções como propriedade dos meios de produzir riquezas - aqui se inclui a exploração da força de trabalho de milhões de pessoas -, pelo sucesso pessoal na conquista de riquezas por quaisquer meios, desprezo absoluto pelas camadas menos favorecidas, ideologia do mandonismo e da repressão violenta. Mesmo tendo certo conhecimento dessas características das classes ricas, lideranças sindicais de esquerda e de direita, com raras exceções, e o povão, acreditam que os problemas vividos pela sociedade é do Estado e não dos rentistas.
 
O pensador estadunidense Noam Chomsky disse certa vez que “A população geral não sabe o que está acontecendo, e eles nem sequer sabem que não sabem” Será que é isso mesmo? Com tão farta e rápida informação que circula em todo lugar, as pessoas do povo, a classe trabalhadora e suas lideranças, não sabem o que se passa com Lula e o país? Não acredito.
 
Nós da esquerda, com raras exceções, que assumimos cargos nos governos petistas dos últimos treze anos, viramos as costas para o povo. E o povo também nos virou as costas. As igrejas pentecostais e neopentecostais ocuparam esses espaços abandonados por nossa volúpia em viver a vida de pequeno-burguês e “fizeram a festa” aliciando o povo para um projeto direitista que sempre combatemos
 
Por fim, Lula perdeu a esposa – Dona Marisa -, convive dia após dia com a insegurança jurídica própria da republiqueta Brasil, porque, entre outras coisas, falta organização e vontade real de enfrentamento e combatividade às nossas lideranças sindicais e à classe trabalhadora como um todo.
 
Segundo Instituto Brasileiro de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), o Brasil possui, atualmente, 16.491 organizações de representação dos interesses econômicos e profissionais, sendo 5.251 de empregadores e 11.240 de empregados. Os sindicatos de trabalhadores são 10.817. Esses dados são reconhecidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e estão disponíveis no texto escrito por André Gambier Campos: Sindicatos no Brasil: o que esperar no futuro próximo? No estudo, além de discutir a vastidão dessas organizações, o autor faz um comparação internacional e aponta as fragilidades das instituições.
 
Onde estão esses sindicatos e suas lideranças num momento como este? Será que, de tão gordos, serão capazes de sair do “bem bom” de suas salas refrigeradas para lutar contra o desmonte do Estado Previdência e a favor do cara que, com erros e acertos, foi, de longe o melhor presidente para os trabalhadores e o povo das últimas décadas? Desconfio que não.
 
Precisamos entender que o real se alimenta desta perpétua vontade exibida pelos defensores da regra do jogo liberal e capitalista de diluir o conflito, de o aniquilar desde o início ou mesmo de o tornar impensável, prevenindo-o o quanto antes. A negação da luta, seja ela das classes ou generalizada, continua sendo o credo reivindicado por aqueles que a tornam possível e a entretêm. Mascarada, sufocada, escondida, dissimulada, negada, ela se transforma em avenida para a circulação dos interesses daqueles que lutam contra a luta (MICHEL, 2001, p. 240).
 
Somos um bando de frouxos, falta-nos a coragem e o espírito guerreiro para suportar desgraças, para superar grandes desafios, enfiamos nossas bundas no assento das nossas vidinhas pequeno-burguesas e, esquecemos o povo. Se depender de nós, Lula irá sangrar até morrer. Pois não temos a coragem de irmos além das manifestações vazias, que falam pra nós mesmos, não iremos além das marchas e passeatas que não levam absolutamente a nada de concreto. As elites estão se linchando para esses modelos de manifestação.
 
Você, que leu até aqui, pode estar pensando: “Nossa reação precisa ser dentro do respeito à lei e à democracia”.
 
Pergunto: Que democracia?
 
Referências: MARTINEZ, Paulo. A teoria das elites. São Paulo: Scipione, 1997. ONFRAY, Michel.
 
A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. Tradução de Mauro Pinheiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
 
Pesquisa do Ipea traça um panorama dos sindicatos. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=29256
 
 
José Gilbert Arruda Martins é Mestre em Ciência Política

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